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[Imagem: Cunhados Botwin às compras, durante uma convenção canabítica.]
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«Via-lhe o sorriso, que não se mostrava nunca em outras ocasiões, pois (lembro-me de que era isto o que tanto me impressionava) jamais sorria na presença de Alexandra Mikailovna. De repente, mal lançava um olhar ao espelho, o rosto modificava-se por completo, o sorriso desaparecia como por encanto e uma expressão de amargura, de um sentimento que se diria brotar irresistivelmente, impossível de esconder nem pelo maior esforço, mostrava-se-lhe então nos lábios; uma ruga de inquietação vincava-se na testa, unindo as sobrancelhas. O olhar ocultava-se por trás dos óculos, e, como por uma ordem, ele ficava afinal outro homem. Recordo-me de que em pequena tremia com medo de compreender o que via, e, mais tarde, esta impressão penosa, desagradável, não se me apagou do coração. Depois de se ter mirado ao espelho, durante um minuto, inclinava-se, como de ordinário fazia quando se apresentava diante de Alexandra Mikailovna, e, em bicos de pés, entrava no quarto.Etiquetas: Clássicos para o povo, Dostoievski, Nietoska Nezvanovna
A destruição de um hectare de milho transgénico por um grupo ambientalista, em Silves, tem provocado alguma polémica e muita alucinação ideológica. À esquerda vislumbrou-se um épico combate a multinacionais e à direita uma reedição das «ocupações selvagens de 1975». Nada nos permite entender em qualquer das posições uma sombra de realidade ou de consistência ideológica. O proprietário do milho vandalizado, José de Menezes, não é nem o dono de qualquer multinacional, nem um proprietário absentista, mas sim um pequeno agricultor que dirige uma empresa de carácter familiar. Ou seja, em linguagem marxista, José de Menezes é simultaneamente o proprietário do seu meio de produção e o criador de mais-valias. Ainda de um ponto de vista marxista, o que são os «ambientalistas»? É difícil responder a esta questão, pois eles não afirmaram a sua identidade a partir de qualquer actividade profissional. Os jornais dizem-nos que boa parte deles são estrangeiros, o que significa que possuem mobilidade internacional e atravessam as fronteiras não para defender os seus direitos enquanto produtores, mas para agir com motivação política. Tudo nos leva a crer que muitos deles, ao contrário, de José de Menezes, possuem educação superior. Se tentássemos defini-los em categorias marxistas de acordo com a informação disponível e presumível - estilo de vida, nível educacional, exigências a nível de consumo, «capital simbólico» - a classificação de «burgueses improdutivos» parece-nos bastante apropriada. Em suma, de um ponto de vista marxista, o que aconteceu em Silves foi um ataque de «burgueses improdutivos» a um frágil criador de mais-valias.Etiquetas: lutas ecológicas, marxismo, Milho transgénico

«Com respeito à natureza do tédio encontram-se frequentemente conceitos erróneos. Crê-se em geral que a novidade e o carácter interessante do seu conteúdo “fazem passar” o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e o vazio estorvam e retardam o seu curso. Não é absolutamente exacto. O vazio e a monotonia alargam por vezes o instante ou a hora e tornam-nos “aborrecidos”; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada. Um conteúdo rico e interessantes é, pelo contrário, capaz de abreviar uma hora ou até mesmo o dia, mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de tal maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e voam. Portanto, o que se chama tédio é, na realidade, antes uma simulação mórbida da brevidade do tempo, provocada pela monotonia: grandes lapsos de tempo quando o seu curso é de uma ininterrupta monotonia chegam a reduzir-se a tal ponto, que assustam mortalmente o coração; quando um dia é como todos, todos são como um só; e numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos. O hábito é uma sonolência, ou, pelo menos, um enfraquecimento do senso do tempo, e o facto dos anos de infância serem vividos vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa, esse facto também se baseia no hábito. Sabemos perfeitamente que a intercalação de mudanças de hábitos, ou de hábitos novos, constitui o único meio de manter a nossa vida, de refrescar a nossa sensação de tempo, de obter um rejuvenescimento, um reforço, um atraso da nossa experiência do tempo, e com isso, a revolução da nossa sensação da vida em geral. Tal é a finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio: nisso reside o que há de salutar na variação e no episódio. Os primeiros dias num ambiente novo têm um curso juvenil, quer dizer, vigoroso e amplo – seis ou oito dias. Depois, na medida em que a pessoa se “aclimata”, começa a senti-los abreviarem-se: quem se apega à vida, ou melhor, quem gostaria de apegar-se à vida nota, com horror, como os dias começam a tornar-se leves e furtivos; e a última semana – de quatro, por exemplo – é de uma rapidez e fugacidade inquietante. Verdade é que a vitalização do nosso senso de tempo faz-se sentir para além do interlúdio, e desempenha o seu papel ainda quando a pessoa já voltou à rotina; os primeiros dias que passamos em casa, depois desta variação, afiguram-se-nos também novos, amplos e juvenis, mas somente uns poucos: porque a gente acostuma-se mais rapidamente à rotina do que à sua suspensão, e quando o nosso senso do tempo está fatigado pela idade, ou nunca o possuímos desenvolvido em alto grau – o que é sinal de pouca força vital – volta a adormecer muito depressa, e ao cabo de vinte e quatro horas já é como se a pessoa jamais tivesse partido e a viagem não passasse do sonho de uma noite.»Etiquetas: A Montanha Mágica, Clássicos para o povo, Thomas Mann
Torre Bela, o filme-ícone do PREC, um documentário sobre a ocupação selvagem de uma herdade de mais de mil hectares, iniciada em Abril de 1975, no Ribatejo está em exibição no King, em cópia restaurada, no verão morno de 2007. Nunca o tinha visto e aconselho a todos a experiência. Sendo o filme de um realizador empenhado, Thomas Harlan, que o dedica a Otelo Saraiva de Carvalho, resiste a qualquer apropriação ideológica, sinal que estamos, antes e além do mais, perante arte e cinema. Não por acaso o filme é citado quer por «saudosistas» quer por «detractores» da revolução. Os primeiros revêem(-se) (n)o entusiasmo revolucionário. Os segundos comprazem-se na denúncia da «irresponsabilidade», da «boçalidade» e até dos atropelos morfológicos e sintácticos dos populares. Etiquetas: filmes, PREC, Torre Bela

Etiquetas: BCP, Joe Berardo, País das Maravilhas