domingo, agosto 19, 2007

A desobediência civil

Mais lamentável que desvalorizar o acto de vandalismo de que já todos ouvimos falar - ou de o confundir com o ambientalismo ou conservacionismo praticados por cidadãos de bem - só mesmo legitimá-lo com recurso ao uso abusivo do conceito de desobediência civil. Henry David Thoreau publicou Civil Desobedience em 1849, no quadro de uma oposição empenhada a duas fontes geradoras de enorme violência na sociedade em que vivia: a guerra entre os Estados Unidos e o México, precipitada pela anexação norte-americana do Texas, e a perpetuação de um sistema escravocrata nos mesmos Estados Unidos. À primeira Thoreau respondeu recusando pagar imposto de voto, pelo que passou uma noite na cadeia; ao segundo, combateu-o por via do publicismo. Em momento algum do seu ensaio de vinte páginas a desobediência civil é concebida como acção ou conjunto de acções violentas contra indivíduos, pelo contrário. O ensaio promove a oposição a situações de violência e injustiça mantidas por um qualquer Estado ou sistema político. Daí que a desobediência civil tenha inspirado personalidades que desenvolveram formas de protesto propositadamente não-violento, como Luther King, Jr. ou Ghandi. A desobediência civil é, na sua raíz, uma desobediência civilizada.
O uso deturpado de conceitos que só se conhecem de ouvido é patético, e pelo menos a mim não dá nenhuma vontade de rir.


[Imagem: Capa de livro feito por jovens que leram o autor e nem por isso consta que tenham desatado a dar cabo das maçarocas geneticamente modificadas dos outros.]

3 Comments:

Blogger CLeone disse...

Muito bem. É outra «luta extremamente avançada», só é pena que o caso do 25 de Abril tenha tido menos unanimidade nas reacções...
Bom, e que que tal Weed (Erva, RTP2, 2as, 22.40)? Talvez ainda melhor que a Betty!

10:09 da manhã  
Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

Eh, eh, de facto, o PREC gerou um maná de expressões inesquecíveis. O Weeds parece-me um bom desafio: vi dois episódios(quer dizer, quatro, pelo que percebi a dose da RTP2 é dupla), e o núcleo do elenco (Mary Louise Parker, o Justin Kirk e Robert Burns)vale bem a atenção aos próximos episódios. O tema (a anormalidade sob normalidade suburbana americana) nem sempre gera grande coisa (Donas de Casa Desesperadas não se revelou propriamente a minha chávena de chá), mas estou intrigada.

8:42 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Bem postado. Eu escrevi um texto sobre o assunto no início desta semana mas, como estava sem internet, só hoje é que vou postá-lo, antes de partir para outra semana fora do ciberespaço. Mas vejo que Agosto não vos tem esmorecido...

5:07 da tarde  

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