terça-feira, agosto 14, 2007

«Lutas extremamente avançadas»

Torre Bela, o filme-ícone do PREC, um documentário sobre a ocupação selvagem de uma herdade de mais de mil hectares, iniciada em Abril de 1975, no Ribatejo está em exibição no King, em cópia restaurada, no verão morno de 2007. Nunca o tinha visto e aconselho a todos a experiência. Sendo o filme de um realizador empenhado, Thomas Harlan, que o dedica a Otelo Saraiva de Carvalho, resiste a qualquer apropriação ideológica, sinal que estamos, antes e além do mais, perante arte e cinema. Não por acaso o filme é citado quer por «saudosistas» quer por «detractores» da revolução. Os primeiros revêem(-se) (n)o entusiasmo revolucionário. Os segundos comprazem-se na denúncia da «irresponsabilidade», da «boçalidade» e até dos atropelos morfológicos e sintácticos dos populares.
Eu não me revejo em nenhuma destas posições. E lamento que as gerações que viveram a revolução durante a infância, ou nasceram depois dela, continuem a reproduzir os estereópitos criados, muitas vezes em auto-justificação ou auto-expiação dos intervenientes, praticando aquilo a que o bispo do Porto chamava «fazer a penitência batendo no peito dos outros».
O que eu vi no filme foi um povo ignorante, desajeitado, tosco, mas generoso, pacífico, movido antes de mais pela vontade de trabalhar para satisfazer as suas necessidades básicas, a ser duplamente atraiçoado pelos senhores locais e pelos militares revolucionários. O proprietário, Duque de Lafões, mostra-se indiferente ao ethos quer da aristocracia quer do catolicismo conservador que impõe deveres de responsabilidade perante os outros e legitima a propriedade pela sua função social. Só perante a pressão dos revolucionários é que manda algumas pessoas às aldeias vizinhas «perguntar se há problemas de desemprego no povo». Os polícias militares empurram os populares para uma ocupação ilegal condenada ao fracasso: «primeiro ocupam a terra, a lei vem depois». O resultado, que só sabemos por legenda, é a prisão dos ocupantes logo após o 25 de Novembro, no início de Dezembro de 1975.
Há várias tiradas célebres. Não costumo ver citada uma das mais surrealistas: um oficial do MFA chega de helicóptero para visitar a herdade ocupada e informar-se da situação. Um dos ocupantes diz-lhe: «estamos dispostos a trabalhar sem receber». Resposta do militar: «isso parece-me uma forma de luta extremamente avançada». É uma frase que me dá que pensar. Quer os saudosistas da revolução quer os seus detractores tendem a ver o filme como o documento de uma fase, para o bem ou para o mal, definitivamente ultrapassada. Eu recordo que vivemos num tempo em que se abusa dos estágios não remunerados. Hoje o capitalismo avançado, como ontem o socialismo revolucionário, maravilha-se com o estado de espírito de quem está disposto a trabalhar sem receber. Os portugueses continuam a ser mestres na arte da negação, em passar «de 8 a 80», em optar por viver utopias em becos sem saída ou em seguir o rebanho na estrada principal. Como dizia uma popular, «assim Portugal não s´alevanta».

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1 Comments:

Blogger Luís Aguiar Santos disse...

Concordo com muito do que aqui dizes. Mas apenas um comentário: na tua crítica à radicalidade do "8 ou 80" dos modelos de sociedade ("capitialista" ou socialista), não te esqueças que Portugal foi sempre uma pátria de meios termos e terceiras vias. O próprio Estado Novo, o regime que terminou com o "povo" naquela "ignorância" que referes, foi um edifício de "terceira via", que pretendia prevenir tanto os males do "capitalismo" quanto os do socialismo. Ou seja, a realidade é ainda mais complicada...

9:25 da manhã  

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