quinta-feira, dezembro 06, 2007

A sovinice protege o ambiente

O súbito desaparecimento em alguma gaveta ministerial do projecto de cobrar uma taxa de cinco cêntimos pelos sacos de plástico nos supermercados resultou de uma reacção precipitada e infeliz de distribuidores e consumidores. Quer uns quer outros olharam apenas para o efeito imediato: o aumento de custos. Eu, que vivo ao pé de um Pingo Doce e de outros supermercados, sai por experiência própria que a sovinice protege ao mesmo tempo o ambiente e o bolso do consumidor. Como de vez em quando vou ao Pingo Doce onde os sacos de plástico custam dois cêntimos, habituei-me a guardar os sacos de plástico que recebo gratuitamente nos outros supermercados. Quando faço compras no Pingo Doce levo uns sacos de plástico gratuitos enroladinhos no bolso e é neles que trago as compras.
Estamos habituados a aprovar ou rejeitar as estratégias do Estado, com uma psicologia que Freud nunca explicou apesar de ter aí terreno fértil para as suas análises, e ignoramos as estratégias dos consumidores e da iniciativa privada. O Estado quer cobrar uma taxa sobre os sacos de plástico? Malvado Estado que nos quer ir ao bolso. A questão é que só nos iria ao bolso se usássemos sacos de plástico. Ninguém impediria um supermercado de inventar sacos biodegradáveis e de distribuí-los gratuitamente para obter vantagens perante a concorrência. Nenhum consumidor estaria proibido de entrar num supermercado com os seus sacos de compras. Exigimos tudo do Estado, sendo que a não intervenção também é uma exigência, e não esperamos nada de nós mesmos nem da iniciativa privada.

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quinta-feira, novembro 08, 2007

Aviões e assadores de castanhas

O ministro dinamarquês de Negócios Estrangeiros contestou com argumentos ecológicos a assinatura do Tratado de Lisboa pelos 27 líderes dos países europeus. Alguém fez as contas e chegou à conclusão de que as viagens, em avião privado, à capital portuguesa representavam um suplemento de 75 mil quilómetros e a emissão de 250 toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera – o mesmo causado pelo aquecimento de uma casa dinamarquesa durante 25 anos. Alternativas propostas seriam aproveitar a deslocação dos ministros dos negócios estrangeiros europeus à cimeira euro-africana, que se realiza em Lisboa, no início de Dezembro, ou assinar o Tratado de Lisboa, com este nome, em Bruxelas. Estas alternativas não agradam à presidência portuguesa da União Europeia que mantém o plano inicial.
Li esta notícia, pouco tempo depois de ouvir outra de carácter mais corriqueiro, mas não menos simbólico: os assadores de castanhas que fazem parte das minhas memórias visuais e olfactivas da infância vão ser substituídos por assadores de inox, em estrita obediência às normas europeias. Contaram-me que uma jornalista televisiva apanhou uma belga nas ruas lisboetas e perguntou-lhe: «Então como é que são os assadores de castanhas no seu país?» «Em Bruxelas os assadores de castanhas são de ferro fundido.»
Estas duas histórias contrastantes introduzem-nos na complexada complexidade do «bom aluno para inglês ver». É uma personagem de rostos múltiplos e filiações partidárias variadas que facilmente manda às urtigas as tradições nacionais mais inócuas, com um zelo aparentemente humilde, mas não perde uma oportunidade de se pôr em bico de pés ao lado dos grandes, de armar-se em carapau de corrida. Durão Barroso nos Açores, ao lado de Bush, entrando sorridente para a História da invasão do Iraque foi um «bom aluno para inglês ver». Sócrates ao lado de Putin mostrou como nem só os ingleses nos vêem e conseguimos marcar presença em mais do que um lado errado da História.
Apesar de eu não ver muitas razões para fazer finca-pé na assinatura do Tratado de Lisboa na dita cidade, os argumentos das organizações ecológicas e do ministro dinamarquês causam-se alguma perplexidade. Sou um ecologista de longa data, mesmo antes de me ter filiado numa associação ecológica aos 14 anos. Mas não creio que o ambientalismo possa ser um valor único ou absoluto. Se estes argumentos forem aplicados sistematicamente nenhuma ONG europeia, por exemplo, alguma vez organizará um Congresso em Cabo Verde. Os aviões diminuem as discrepâncias entre centro e periferia, entre Norte e Sul. O turismo de massas globalizado que os aviões permitem terá os seus inconvenientes, mas permite insuflar algum dinamismo económico em regiões subdesenvolvidas. Observei isso na Tanzânia. Perto do Quilimanjaro há um aeroporto internacional certamente responsável pela emissão de muitas toneladas de CO2 para a atmosfera. Mas sem esse aeroporto e a afluência de turistas que permite seria mais difícil conservar o Parque Natural do Quilimanjaro e encarar a preservação de paisagens naturais como um investimento económico. Ou proporcionar a tantos africanos as oportunidades de trabalho e de negócio que vão desde carregar a carga dos montanhistas até à venda de bastões de caminhada, de comida, ou a organização de safaris.
Com menos aviões a cruzar os céus haverá menos poluição mas alargar-se-á o fosso entre regiões ricas e pobres.

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sábado, setembro 08, 2007

Debates transgénicos

Regressado de férias, aproveitei uma pausa numa rentrée pesada para me pôr a par de muitos textos publicados sobre o «caso» do milho transgénico. Miguel Portas, cujas reacções imediatas contribuíram para o clamor em volta da história, escreveu um texto mais ponderado aqui. O post só indica que passou ao lado do essencial. A direita cumpriu o seu papel ao defender o direito de propriedade. A esquerda não percebeu que nesta história não se encontrava em causa apenas o direito de propriedade, mas também o direito do trabalho. O slogan da esquerda não era «a terra a quem a trabalha?». Neste caso, quem é que trabalha a terra – José de Menezes ou Gualter Baptista? Se uma cooperativa decidisse, em assembleia, cultivar milho transgénico o problema não era exactamente o mesmo? Se um grupo de «ambientalistas» atacasse uma cooperativa que cultivasse milho transgénico para quem é que iam as «simpatias» de Miguel Portas?
O Bloco de Esquerda vive o grande equívoco de imaginar que a causa ecológica é necessariamente anti-capitalista. Basta um nome – Tchernobyl – para perceber que não é assim. O que é que impede uma empresa privada de se dedicar à agricultura biológica e de ter como segmento de mercado os mais ricos? O que é que impede um Estado como o da Coreia do Norte de, se tiver capacidade tecnológica, produzir alimentos transgénicos?
No remate do seu post, Miguel Portas pergunta - «Transgénicos fora ou dentro do prato?». A minha resposta é a seguinte: se a ciência tem a certeza de que são prejudiciais à saúde, a lei deve manter os transgénicos fora do prato. Perante a dúvida científica, cabe ao consumidor escolher. A minha inclinação é para rejeitar alimentos transgénicos. O que posso exigir é que os alimentos transgénicos sejam identificados de modo a permitir a escolha, não apoiar a destruição de plantações. Até porque o produto das plantações transgénicas não vai necessariamente parar ao prato. Em Silves, não se cultivava milho transgénico destinado ao prato, mas a rações, ou seja, a manjedouras ou pocilgas.
A alimentação é apenas um aspecto das plantações transgénicas. Estas podem ter outro tipo de utilização, como a produção de biocombustível. E este ângulo da questão não tem sido abordado. Em causa está também a produção de energia renovável, que diminua a poluição da atmosfera, os custos de produção e a dependência face aos países produtores de petróleo. O movimento Verde Eufémia pode ser o mal de que pretende ser a cura.
Imagem retirada daqui.

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quinta-feira, agosto 23, 2007

Milho transgénico e ideologia travestida

A destruição de um hectare de milho transgénico por um grupo ambientalista, em Silves, tem provocado alguma polémica e muita alucinação ideológica. À esquerda vislumbrou-se um épico combate a multinacionais e à direita uma reedição das «ocupações selvagens de 1975». Nada nos permite entender em qualquer das posições uma sombra de realidade ou de consistência ideológica. O proprietário do milho vandalizado, José de Menezes, não é nem o dono de qualquer multinacional, nem um proprietário absentista, mas sim um pequeno agricultor que dirige uma empresa de carácter familiar. Ou seja, em linguagem marxista, José de Menezes é simultaneamente o proprietário do seu meio de produção e o criador de mais-valias. Ainda de um ponto de vista marxista, o que são os «ambientalistas»? É difícil responder a esta questão, pois eles não afirmaram a sua identidade a partir de qualquer actividade profissional. Os jornais dizem-nos que boa parte deles são estrangeiros, o que significa que possuem mobilidade internacional e atravessam as fronteiras não para defender os seus direitos enquanto produtores, mas para agir com motivação política. Tudo nos leva a crer que muitos deles, ao contrário, de José de Menezes, possuem educação superior. Se tentássemos defini-los em categorias marxistas de acordo com a informação disponível e presumível - estilo de vida, nível educacional, exigências a nível de consumo, «capital simbólico» - a classificação de «burgueses improdutivos» parece-nos bastante apropriada. Em suma, de um ponto de vista marxista, o que aconteceu em Silves foi um ataque de «burgueses improdutivos» a um frágil criador de mais-valias.
O ponto de vista marxista é sempre redutor. A acção dos ambientalistas não pode ser interpretada apenas do ponto de vista do seu lugar no modo de produção, mas também pelos direitos e deveres de que gozam como cidadãos e pelos seus interesses como consumidores. Como cidadãos integrados numa (ou várias) democracia(s) representativa(s) eles podem e, se agirem segundo a sua consciência, devem eleger deputados que alterem as leis e proíbam o milho transgénico. Como consumidores podem e, ainda segundo a sua consciência, devem promover campanhas contra os alimentos transgénicos, obrigar à identificação destes produtos e persuadir os outros consumidores a não os comprarem. A destruição de milho legalmente plantado não se justifica de nenhum ponto de vista.

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