Milho transgénico e ideologia travestida
A destruição de um hectare de milho transgénico por um grupo ambientalista, em Silves, tem provocado alguma polémica e muita alucinação ideológica. À esquerda vislumbrou-se um épico combate a multinacionais e à direita uma reedição das «ocupações selvagens de 1975». Nada nos permite entender em qualquer das posições uma sombra de realidade ou de consistência ideológica. O proprietário do milho vandalizado, José de Menezes, não é nem o dono de qualquer multinacional, nem um proprietário absentista, mas sim um pequeno agricultor que dirige uma empresa de carácter familiar. Ou seja, em linguagem marxista, José de Menezes é simultaneamente o proprietário do seu meio de produção e o criador de mais-valias. Ainda de um ponto de vista marxista, o que são os «ambientalistas»? É difícil responder a esta questão, pois eles não afirmaram a sua identidade a partir de qualquer actividade profissional. Os jornais dizem-nos que boa parte deles são estrangeiros, o que significa que possuem mobilidade internacional e atravessam as fronteiras não para defender os seus direitos enquanto produtores, mas para agir com motivação política. Tudo nos leva a crer que muitos deles, ao contrário, de José de Menezes, possuem educação superior. Se tentássemos defini-los em categorias marxistas de acordo com a informação disponível e presumível - estilo de vida, nível educacional, exigências a nível de consumo, «capital simbólico» - a classificação de «burgueses improdutivos» parece-nos bastante apropriada. Em suma, de um ponto de vista marxista, o que aconteceu em Silves foi um ataque de «burgueses improdutivos» a um frágil criador de mais-valias.O ponto de vista marxista é sempre redutor. A acção dos ambientalistas não pode ser interpretada apenas do ponto de vista do seu lugar no modo de produção, mas também pelos direitos e deveres de que gozam como cidadãos e pelos seus interesses como consumidores. Como cidadãos integrados numa (ou várias) democracia(s) representativa(s) eles podem e, se agirem segundo a sua consciência, devem eleger deputados que alterem as leis e proíbam o milho transgénico. Como consumidores podem e, ainda segundo a sua consciência, devem promover campanhas contra os alimentos transgénicos, obrigar à identificação destes produtos e persuadir os outros consumidores a não os comprarem. A destruição de milho legalmente plantado não se justifica de nenhum ponto de vista.
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