sexta-feira, agosto 24, 2007

Nietoska Nezvanovna

«Via-lhe o sorriso, que não se mostrava nunca em outras ocasiões, pois (lembro-me de que era isto o que tanto me impressionava) jamais sorria na presença de Alexandra Mikailovna. De repente, mal lançava um olhar ao espelho, o rosto modificava-se por completo, o sorriso desaparecia como por encanto e uma expressão de amargura, de um sentimento que se diria brotar irresistivelmente, impossível de esconder nem pelo maior esforço, mostrava-se-lhe então nos lábios; uma ruga de inquietação vincava-se na testa, unindo as sobrancelhas. O olhar ocultava-se por trás dos óculos, e, como por uma ordem, ele ficava afinal outro homem. Recordo-me de que em pequena tremia com medo de compreender o que via, e, mais tarde, esta impressão penosa, desagradável, não se me apagou do coração. Depois de se ter mirado ao espelho, durante um minuto, inclinava-se, como de ordinário fazia quando se apresentava diante de Alexandra Mikailovna, e, em bicos de pés, entrava no quarto.
Era esta recordação que acabava de me impressionar. Então, como agora, ele julgava-se só quando se abeirava do espelho; agora, como então, com um sentimento desagradável, eu achava-me não muito longe de Piotre Alexandrovich. Mas ao ouvir esse canto (o que menos se esperava dele) que me feria de modo tão inesperado, fiquei pregada ao chão, e, no mesmo momento, evoquei uma cena da infância. Os nervos vibraram-me todos, e, em resposta a essa malfadada canção, soltei tal risada que o pobre cantor deu um grito, pulou para longe do espelho, e, pálido como um cadáver, sentindo-se apanhado em flagrante, olhou-me cheio de terror, de espanto e de fúria. Esse olhar agiu doentiamente em mim; repliquei com um riso nervoso, mesmo cara a cara, e, sem deixar de rir, entrei no quarto de Alexandra Mikailovna.»

Fiodor Dostoievski, Noites Brancas e outras novelas, Lisboa, Estúdios Cor, 1964, pág. 398

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