sábado, setembro 08, 2007

Debates transgénicos

Regressado de férias, aproveitei uma pausa numa rentrée pesada para me pôr a par de muitos textos publicados sobre o «caso» do milho transgénico. Miguel Portas, cujas reacções imediatas contribuíram para o clamor em volta da história, escreveu um texto mais ponderado aqui. O post só indica que passou ao lado do essencial. A direita cumpriu o seu papel ao defender o direito de propriedade. A esquerda não percebeu que nesta história não se encontrava em causa apenas o direito de propriedade, mas também o direito do trabalho. O slogan da esquerda não era «a terra a quem a trabalha?». Neste caso, quem é que trabalha a terra – José de Menezes ou Gualter Baptista? Se uma cooperativa decidisse, em assembleia, cultivar milho transgénico o problema não era exactamente o mesmo? Se um grupo de «ambientalistas» atacasse uma cooperativa que cultivasse milho transgénico para quem é que iam as «simpatias» de Miguel Portas?
O Bloco de Esquerda vive o grande equívoco de imaginar que a causa ecológica é necessariamente anti-capitalista. Basta um nome – Tchernobyl – para perceber que não é assim. O que é que impede uma empresa privada de se dedicar à agricultura biológica e de ter como segmento de mercado os mais ricos? O que é que impede um Estado como o da Coreia do Norte de, se tiver capacidade tecnológica, produzir alimentos transgénicos?
No remate do seu post, Miguel Portas pergunta - «Transgénicos fora ou dentro do prato?». A minha resposta é a seguinte: se a ciência tem a certeza de que são prejudiciais à saúde, a lei deve manter os transgénicos fora do prato. Perante a dúvida científica, cabe ao consumidor escolher. A minha inclinação é para rejeitar alimentos transgénicos. O que posso exigir é que os alimentos transgénicos sejam identificados de modo a permitir a escolha, não apoiar a destruição de plantações. Até porque o produto das plantações transgénicas não vai necessariamente parar ao prato. Em Silves, não se cultivava milho transgénico destinado ao prato, mas a rações, ou seja, a manjedouras ou pocilgas.
A alimentação é apenas um aspecto das plantações transgénicas. Estas podem ter outro tipo de utilização, como a produção de biocombustível. E este ângulo da questão não tem sido abordado. Em causa está também a produção de energia renovável, que diminua a poluição da atmosfera, os custos de produção e a dependência face aos países produtores de petróleo. O movimento Verde Eufémia pode ser o mal de que pretende ser a cura.
Imagem retirada daqui.

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quinta-feira, agosto 23, 2007

Milho transgénico e ideologia travestida

A destruição de um hectare de milho transgénico por um grupo ambientalista, em Silves, tem provocado alguma polémica e muita alucinação ideológica. À esquerda vislumbrou-se um épico combate a multinacionais e à direita uma reedição das «ocupações selvagens de 1975». Nada nos permite entender em qualquer das posições uma sombra de realidade ou de consistência ideológica. O proprietário do milho vandalizado, José de Menezes, não é nem o dono de qualquer multinacional, nem um proprietário absentista, mas sim um pequeno agricultor que dirige uma empresa de carácter familiar. Ou seja, em linguagem marxista, José de Menezes é simultaneamente o proprietário do seu meio de produção e o criador de mais-valias. Ainda de um ponto de vista marxista, o que são os «ambientalistas»? É difícil responder a esta questão, pois eles não afirmaram a sua identidade a partir de qualquer actividade profissional. Os jornais dizem-nos que boa parte deles são estrangeiros, o que significa que possuem mobilidade internacional e atravessam as fronteiras não para defender os seus direitos enquanto produtores, mas para agir com motivação política. Tudo nos leva a crer que muitos deles, ao contrário, de José de Menezes, possuem educação superior. Se tentássemos defini-los em categorias marxistas de acordo com a informação disponível e presumível - estilo de vida, nível educacional, exigências a nível de consumo, «capital simbólico» - a classificação de «burgueses improdutivos» parece-nos bastante apropriada. Em suma, de um ponto de vista marxista, o que aconteceu em Silves foi um ataque de «burgueses improdutivos» a um frágil criador de mais-valias.
O ponto de vista marxista é sempre redutor. A acção dos ambientalistas não pode ser interpretada apenas do ponto de vista do seu lugar no modo de produção, mas também pelos direitos e deveres de que gozam como cidadãos e pelos seus interesses como consumidores. Como cidadãos integrados numa (ou várias) democracia(s) representativa(s) eles podem e, se agirem segundo a sua consciência, devem eleger deputados que alterem as leis e proíbam o milho transgénico. Como consumidores podem e, ainda segundo a sua consciência, devem promover campanhas contra os alimentos transgénicos, obrigar à identificação destes produtos e persuadir os outros consumidores a não os comprarem. A destruição de milho legalmente plantado não se justifica de nenhum ponto de vista.

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