segunda-feira, novembro 19, 2007

Dalailemos mais um bocadinho

Parece que Portugal devia ter usado a Presidência da UE para receber o Dalai Lama. Eu estimo a intenção e estimo muito o Dalai Lama. Estimo incomparavelmente mais do que ao brutal governo comunista e ateu chinês que persegue protestantes, católicos, budistas vários.
Mas os meus desgostos não impedem que me dê conta de alguns problemas com esta esta tese. Primeiramente, acho ridículo que as mesmas vozes (em bloco) que criticam que o Santo Padre seja recebido com as honras de Chefe de Estado que lhe são devidas e universalmente reconhecidas, venham depois reclamar para o Dalai Lama recepções oficiais que ele nem pediu (com o Presidente da República) ou que não têm qualquer justificação pelo seu estatuto - visto que ele não é reconhecido por ninguém como Chefe de Estado (nem estritamente o reclama.)

Logo de seguida, apareceu o bom exemplo da chanceler alemã Angela Merkel, a qual recebeu o Dalai Lama. Houve notícias e comentários por todo o lado. Estranho que agora os jornais e blogues portugueses pareçam ter-se esquecido de dar o devido relevo à sequela.

O Ministro das Finanças alemão acabou de ser forçado a cancelar, no último minuto, uma visita oficial à China, em que seria acompanhado de empresários alemães, depois de ter sido informado que afinal o seu homólogo chinês não o poderia receber como estava previsto.

Valeu a pena? O Tibete foi liberatado? A China mudou de política? Parece que não. Nem acredito que o faça em resposta a pressões externas públicas e abertas numa questão em que a prioridade de Pequim é precisamente marcar a soberania nacional chinesa.

Os riscos de uma política externa errática ao sabor dos humores populares, das causas do momento, sem noção do quais serão os custos e benefícios seria especialmente penosa para um país como Portugal. As boas intenções não bastam, são precisas boas políticas, boa diplomacia, bom-senso. Os direitos humanos, os valores e os interesses portugueses não merecem menos.

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quinta-feira, setembro 13, 2007

Boa onda


A capacidade do Dalai Lama de criar relações harmoniosas entre pessoas e partidos antagónicos é espantosa. Ainda ontem Tenzin Gyatso chegou a Lisboa e Jerónimo de Sousa começou logo a falar nos problemas políticos do Tibete e nas razões para negar uma recepção oficial ao Dalai Lama, num tom repleto de «boas vibrações» para com o Governo, anteriormente classificado pelo PCP como o «mais à direita em Portugal desde o 25 de Abril».

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O Dalai Lama e a situação no Tibete


As declarações do Dalai Lama ontem, no dia de chegada a Lisboa, podiam ser uma resposta ao longuíssimo comentário que um anónimo me fez ao post anterior. Começava por perguntar a quem interessava a divisão da China e desenvolvia uma longa dissertação sobre a História do Tibete sublinhando as relações sociais arcaicas e opressivas da sociedade tibetana antes de 1950.
Tenzin Gyatso reafirmou que não pretende a independência, mas uma verdadeira autonomia do Tibete. Alguns números a contrapor: em Lhasa dois terços dos habitantes são chineses - «Os tibetanos tornam-se minoria na nossa própria terra; na sua vida diária, a minoria tibetana tem de falar chinês.» Outra das suas críticas vai para a política económica chinesa que delapida os recursos naturais do Tibete.
Quanto à ao modelo sócio-económico vigente no Tibete até meados do século XX, nunca foi defendido pelo Dalai Lama o qual, pelo contrário, disse: «Há tibetanos na sala e com certeza concordam quando digo que [ninguém] quer voltar ao Tibete antigo.» Devolvo ao comentador anónimo o cumprimento sobre a necessidade das pessoas se informarem acerca do que escrevem.

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quarta-feira, setembro 12, 2007

O Dalai Lama em Lisboa

Só uma personalidade rara como o décimo quarto Dalai Lama pode estabelecer uma ponte entre uma cultura tão exótica e remota como a do budismo tibetano e a cultura global em que vivemos. Ler o LivroTibetanos dos Mortos e Ética para o Novo Milénio permite compreender esse trajecto fascinante. Escrevi sobre o Dalai Lama e o seu projecto ético logo no início deste blogue, aqui.
É paradoxal que o 11 de Setembro e a luta contra o terrorismo sejam invocados para negar uma recepção oficial ao Dalai Lama pelos máximos responsáveis políticos portugueses. O Dalai Lama é um exemplo de resistência não-violenta a um Estado opressor; de conciliação entre a fidelidade a uma tradição religiosa muito particular e de defesa de valores universalizáveis; de empenho na libertação do medo e do ódio, as sementes do terror. Arnold Schwarzenneger recebeu-o como Governador da Califórnia e Sócrates recusa-se a recebê-lo como primeiro-ministro de um Governo Socialista. O antigo «exterminador» pode olhar de cima este país de «brandos costumes».

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