Aviões e assadores de castanhas
O ministro dinamarquês de Negócios Estrangeiros contestou com argumentos ecológicos a assinatura do Tratado de Lisboa pelos 27 líderes dos países europeus. Alguém fez as contas e chegou à conclusão de que as viagens, em avião privado, à capital portuguesa representavam um suplemento de 75 mil quilómetros e a emissão de 250 toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera – o mesmo causado pelo aquecimento de uma casa dinamarquesa durante 25 anos. Alternativas propostas seriam aproveitar a deslocação dos ministros dos negócios estrangeiros europeus à cimeira euro-africana, que se realiza em Lisboa, no início de Dezembro, ou assinar o Tratado de Lisboa, com este nome, em Bruxelas. Estas alternativas não agradam à presidência portuguesa da União Europeia que mantém o plano inicial.Li esta notícia, pouco tempo depois de ouvir outra de carácter mais corriqueiro, mas não menos simbólico: os assadores de castanhas que fazem parte das minhas memórias visuais e olfactivas da infância vão ser substituídos por assadores de inox, em estrita obediência às normas europeias. Contaram-me que uma jornalista televisiva apanhou uma belga nas ruas lisboetas e perguntou-lhe: «Então como é que são os assadores de castanhas no seu país?» «Em Bruxelas os assadores de castanhas são de ferro fundido.»
Estas duas histórias contrastantes introduzem-nos na complexada complexidade do «bom aluno para inglês ver». É uma personagem de rostos múltiplos e filiações partidárias variadas que facilmente manda às urtigas as tradições nacionais mais inócuas, com um zelo aparentemente humilde, mas não perde uma oportunidade de se pôr em bico de pés ao lado dos grandes, de armar-se em carapau de corrida. Durão Barroso nos Açores, ao lado de Bush, entrando sorridente para a História da invasão do Iraque foi um «bom aluno para inglês ver». Sócrates ao lado de Putin mostrou como nem só os ingleses nos vêem e conseguimos marcar presença em mais do que um lado errado da História.
Apesar de eu não ver muitas razões para fazer finca-pé na assinatura do Tratado de Lisboa na dita cidade, os argumentos das organizações ecológicas e do ministro dinamarquês causam-se alguma perplexidade. Sou um ecologista de longa data, mesmo antes de me ter filiado numa associação ecológica aos 14 anos. Mas não creio que o ambientalismo possa ser um valor único ou absoluto. Se estes argumentos forem aplicados sistematicamente nenhuma ONG europeia, por exemplo, alguma vez organizará um Congresso em Cabo Verde. Os aviões diminuem as discrepâncias entre centro e periferia, entre Norte e Sul. O turismo de massas globalizado que os aviões permitem terá os seus inconvenientes, mas permite insuflar algum dinamismo económico em regiões subdesenvolvidas. Observei isso na Tanzânia. Perto do Quilimanjaro há um aeroporto internacional certamente responsável pela emissão de muitas toneladas de CO2 para a atmosfera. Mas sem esse aeroporto e a afluência de turistas que permite seria mais difícil conservar o Parque Natural do Quilimanjaro e encarar a preservação de paisagens naturais como um investimento económico. Ou proporcionar a tantos africanos as oportunidades de trabalho e de negócio que vão desde carregar a carga dos montanhistas até à venda de bastões de caminhada, de comida, ou a organização de safaris.
Com menos aviões a cruzar os céus haverá menos poluição mas alargar-se-á o fosso entre regiões ricas e pobres.
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