quinta-feira, novembro 08, 2007

Aviões e assadores de castanhas

O ministro dinamarquês de Negócios Estrangeiros contestou com argumentos ecológicos a assinatura do Tratado de Lisboa pelos 27 líderes dos países europeus. Alguém fez as contas e chegou à conclusão de que as viagens, em avião privado, à capital portuguesa representavam um suplemento de 75 mil quilómetros e a emissão de 250 toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera – o mesmo causado pelo aquecimento de uma casa dinamarquesa durante 25 anos. Alternativas propostas seriam aproveitar a deslocação dos ministros dos negócios estrangeiros europeus à cimeira euro-africana, que se realiza em Lisboa, no início de Dezembro, ou assinar o Tratado de Lisboa, com este nome, em Bruxelas. Estas alternativas não agradam à presidência portuguesa da União Europeia que mantém o plano inicial.
Li esta notícia, pouco tempo depois de ouvir outra de carácter mais corriqueiro, mas não menos simbólico: os assadores de castanhas que fazem parte das minhas memórias visuais e olfactivas da infância vão ser substituídos por assadores de inox, em estrita obediência às normas europeias. Contaram-me que uma jornalista televisiva apanhou uma belga nas ruas lisboetas e perguntou-lhe: «Então como é que são os assadores de castanhas no seu país?» «Em Bruxelas os assadores de castanhas são de ferro fundido.»
Estas duas histórias contrastantes introduzem-nos na complexada complexidade do «bom aluno para inglês ver». É uma personagem de rostos múltiplos e filiações partidárias variadas que facilmente manda às urtigas as tradições nacionais mais inócuas, com um zelo aparentemente humilde, mas não perde uma oportunidade de se pôr em bico de pés ao lado dos grandes, de armar-se em carapau de corrida. Durão Barroso nos Açores, ao lado de Bush, entrando sorridente para a História da invasão do Iraque foi um «bom aluno para inglês ver». Sócrates ao lado de Putin mostrou como nem só os ingleses nos vêem e conseguimos marcar presença em mais do que um lado errado da História.
Apesar de eu não ver muitas razões para fazer finca-pé na assinatura do Tratado de Lisboa na dita cidade, os argumentos das organizações ecológicas e do ministro dinamarquês causam-se alguma perplexidade. Sou um ecologista de longa data, mesmo antes de me ter filiado numa associação ecológica aos 14 anos. Mas não creio que o ambientalismo possa ser um valor único ou absoluto. Se estes argumentos forem aplicados sistematicamente nenhuma ONG europeia, por exemplo, alguma vez organizará um Congresso em Cabo Verde. Os aviões diminuem as discrepâncias entre centro e periferia, entre Norte e Sul. O turismo de massas globalizado que os aviões permitem terá os seus inconvenientes, mas permite insuflar algum dinamismo económico em regiões subdesenvolvidas. Observei isso na Tanzânia. Perto do Quilimanjaro há um aeroporto internacional certamente responsável pela emissão de muitas toneladas de CO2 para a atmosfera. Mas sem esse aeroporto e a afluência de turistas que permite seria mais difícil conservar o Parque Natural do Quilimanjaro e encarar a preservação de paisagens naturais como um investimento económico. Ou proporcionar a tantos africanos as oportunidades de trabalho e de negócio que vão desde carregar a carga dos montanhistas até à venda de bastões de caminhada, de comida, ou a organização de safaris.
Com menos aviões a cruzar os céus haverá menos poluição mas alargar-se-á o fosso entre regiões ricas e pobres.

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4 Comments:

Anonymous jorge lopes disse...

Este conceito de querer reduzir o número das viagens de avião é fascista, totalitarista, moralista, fundamenalista e obscurantista. As pessoas que defendem isso podem começar por vender os jipes a gasóleo e levarem as suas criancinhas para os colégios de autocarro... Ao fim de semana também podem apanhar carreira e ir à praia da Caparica em vez da Comporta.
Certamente assim com o que poupam poderá andar-se mais de avião, fazer negócios, emigrar, viajar... e aturala-los menos.
Vivam os aviões! Abaixo os fascistas portugueses e também os comedores de arenques moralistas do ambiente

8:57 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

"Durão Barroso nos Açores, ao lado de Bush, entrando sorridente para a História da invasão do Iraque foi um «bom aluno para inglês ver». Sócrates ao lado de Putin mostrou como nem só os ingleses nos vêem e conseguimos marcar presença em mais do que um lado errado da História."

A melhor imagem do tipico dirigente politico portugues é o Emplastro do Porto

2:41 da tarde  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Portanto a conclusão é que os líderes portugueses deviam conformar-se ao seu estatuto de cidadãos de segunda?

Portugal devia ter recusado a presidência da UE para não andar a mostrar-se aos ingleses?

Inglês ver? Mas o que é que me importa que os belgas tenham assadores menos higiénicos?! Essa é que a lógica de inglês ver.

O seu oposto é assumir com naturalidade o nosso lugar no mundo, e adaptar os bons exemplos.

Não sei de onde vem essa ideia de que a diplomacia portuguesa se coloca em bicos dos pés. Por vezes é até excessivamente discreta.

8:47 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Eu acho que colocar as conveniências acima dos valores é que é reivindicar um estatuto de segunda. Um estatuto de segunda é andar ao ziguezague como Durão Barroso que como primeiro-ministro português quis ficar bem na fotografia ao lado de Bush e como presidente da comissão europeia demarca-se dos Estados Unidos.
Não vejo por que é que Portugal devia rejeitar a Presidência da União Europeia, devia era usá-la na para fazer mais política do que defender interesses mesquinhos.
No meu post anterior até cito o que considero um bom exemplo: o encontro informal de Sampaio com o Dalai Lama. Não é um grande gesto, mas é o suficiente para mostrar que os cargos públicos também servem para defender valores. Aliás, cito dois exemplos e o outro até foi mais importante: a acção diplomática portuguesa pela autodeterminação de Timor-Leste.

11:20 da tarde  

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