sexta-feira, fevereiro 27, 2009

A pergunta que se impõe

Para quando um almanaque do povo sobre o twitter, essa nova chaga social da classe média mental nacional?

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sábado, fevereiro 21, 2009

States of Mind

Confirmei com os meus próprios olhos que a simples eleição de Obama não levou, para já, a mudanças revolucionárias nos States.
Felizmente em alguns casos. Graças a Deus ainda há magníficos coros nas missas de Domingo, e french toasts para o pequeno-almoço, que não se fazem melhor em sítio nenhum (nem mesmo em França).
Infelizmente, provando que não há milagres em política, a equipa Obama - talvez levada pela sempre temorosa hybris da vitória - cometeu alguns erros nas nomeações para o seu gabinete. O suposto "Czar da Saúde", e antigo líder dos democratas no senado, Tom Daschle, foi uma baixa importante. A reforma da política de saúde é um problema prioritário para a sanidade dos EUA e ele seria a pessoa ideal para a fazer passar pelo Congresso. Ideal se, como se veio a descobrir, não tivesse deixado uma quantia significativa de impostos por pagar.
Erros todos cometemos, mas a política americana é particularmente implacável e este tipo de coisa é geralmente fatal. (Apesar disso o Secretário do Tesouro, beneficiando ainda do capital político de Obama e do pânico da crise, foi confirmado pelo Senado).
Politicamente estes problemas fiscais da nova equipa Obama deram oportunidade - mais uma prova de que não há milagres em política - aos Republicanos para começar a contra-atacar dizendo que os Democratas querem sempre subir os impostos (apenas os dos mais ricos, mas isso é esquecido) por que não tencionam pagá-los! O humorista democrata Bill Maher juntou-se à festa dizendo que Obama aparentemente não conhecia ninguém que tivesse pagos os seus impostos!
Mas a verdade é que uma certa mudança nas mentalidades é visível: o Estado deixou de ser visto tanto como o inimigo, e mais como uma alomofada necessária para amortecer a crise.
Mas para isso resultar numa mudança real e duradoira é necessário saber aproveitar politicamente o momento de forma inteligente, pragmática, e que dê resultados práticos, reformando o Estado para o tornar mais eficaz (o Wilson Quarterly faz um dossier precisamente em torno deste tema, perguntando muito americanamente: Must Government Be Incompetent?).
Em suma trata-se de retomar os esforços progressista da Terceira Via que afinal a Newsweek (e muitos orfãos do marxismo-leninismo, mais uma vez) tinham precocemente enterrado. O tema de capa aqui há uns meses era o fim da social-democracia na Europa. (A hybris também existe na análise e na imprensa, não é exclusivo da política). Agora a mesma revista afirma na capa que afinal todos - graças a Obama e à crise - nos estamos a tornar socialistas!
Para além desta ainda frágil possibilidade de mudança substancial, é notável também na sempre reveladora publicidade o peso dos anúncios de recrutamento para as forças armadas. E vem de par do anúncio que qualquer residente legal nos EUA ao fim de dois anos pode passar a ser recrutado e ganhar a cidadania em seis meses. As legiões da nova Roma a imitar a antiga? Notáveis ainda pela quantidade os anúncios a empresas de renegociação da dívida.
Os EUA de Obama, como os de Bush, precisam de mais soldados e de menos dívida. Veremos como Obama e o seu pacote recém aprovado pelo Congresso (quase sem apoio dos Republicanos) enfrenta o desafio. Está no ar (hybris?) a ideia de que este momento de crise pode dar aos Democratas a possibilidade de repetir o feito de FDR (o Roosevelt do New Deal - fala-se recorrentemente de um New New Deal) e reconfigurar a paisagem política americana duradoramente em seu favor. Um outro paralelo possível, que ninguém quer recordar, no entanto, é o reformismo do presidente Lyndon Johnson que acabou afogado em sangue nas selvas no Vietname. Esperemos que - graças aos talentos de Hoolbrooke e Petraeus - o mesmo não suceda com Obama nas montanhas agrestes do Afeganistão.

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quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Mal por mal...

video

Este vídeo talvez ajude a explicar o que por aqui se diz... por comparação, o nosso ministro das finanças já não parece assim tão mau....

Link improvável (I)

Na estreia dos links improváveis, em vez de sondagens, música.
O meu miúdo gosta de vampire weekend, enquanto o filho de Pedro Magalhães prefere Santigold. A diferença etária pode explicar alguma coisa, mas a margem de erro é irrelevante, a música é óptima para todos.

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terça-feira, fevereiro 17, 2009

Liberdade

"Ouve-me, Sara, ouve-me.
Disseram-te: minha filha, tu és isto e aquilo.
E eu digo-te: tu és como és, Sara.
Disseram-te: as coisas são o que são. Querer que elas sejam outra coisa é tolice e pecado, presunção, sonho infantil, revolta.
E eu digo-te: transforma o mundo, Sara.
Disseram-te: faz bem o que tens a fazer, respeita a lei, ocupa o lugar que te é devido.
E eu digo-te: parte, Sara.
Disseram-te: minha filha, vela pela tua saúde, procura ser normal e sã e comportar-te sempre como deve ser.
E eu digo-te: muda a tua fraqueza para força e sê livre, Sara, minha irmã."

Maurice Bellet, “Les survivants”, 1974

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Educação e crença


"Do you, personally, believe in the theory of evolution, do you not believe in evolution, or don´t you have an opinion either way?" - Este foi o mote para se estabelecer, por altura da comemoração do bicentenário de Charles Darwin, a relação entre educação e crença.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

A arte, entre a ideologia e a ciência

Valkíria e Milk são dois filmes demasiado diferentes para fazer comparações. Ambos têm em comum casos reais, filmados em estilo documental, e um trabalho de reconstituição de época bem sucedido (especialmente no caso de Milk). Mas o carácter extremo da situação narrada em Valkíria e o caso limite de Harvey Milk são demasiado diferentes para forçar aproximações. Dois bons filmes, mas em comum só o espectador.
No caso de Valkiria, reconstituição bastante fiel do plano para matar Hitler que mais perto esteve de ser bem sucedido, além de uma compreensível poupança nos detalhes cruéis da repressão dos conspiradores (incluindo seus familiares), o conjunto de bons actores (mesmo Tom Cruise não destoa muito como oficial alemão mutilado) e de realização segura dá ao filme uma aproximação ao ambiente decadente do final do III Reich (longe, ainda assim, de A Queda). E o espectador fica com uma imagem clara e expressiva dos dilemas morais e práticos com que só os que lidam com a morte lidam de forma habitual.
Milk, história edificante além de real, dá uma interpretação magnífica de Sean Penn e um conjunto de conotações com a história recente, actual, dos EUA. Também aqui a morte, no caso do activista e político gay algo de excessivo e inopinado, marca toda a narrativa (com alguns saltos na edição que omitem o lado menos visionável do activismo do protagonista). Para o espectador, é algo ainda assim mais próximo do que o horror distante do nazismo. A intolerância baseada no preconceito ainda é próxima de todos nós, a aleatoriedade de uma morte violenta às mãos de um qualquer (des)conhecido não poupa, ao menos como hipótese, nenhum de nós.A positividade do combate pelo bem é menos ambígua, menos frágil e menos remota do que em Valkíria, como todo o ambiente da acção.
O significativo é como a representação do mal nestes filmes é sempre extrema. A morte de inocentes, promovida de forma selvática, na base de uma intolerência que se quer intratável. (Não se trata de equivalência moral entre a Alemanha dos anos ’40 e os EUA dos anos ’70, claro.) O mal diário, esse, fica de fora ou, pelo menos em segundo plano. A perseguição no emprego, bem mais perversa que a provação de acesso ao trabalho (ao contrário do que supõem os teóricos da igualdade de oportunidades em versão meritocrática), apenas lateralmente surge. A pressão para a habituação face à injustiça manifesta surge quase sempre como parte do cenário. Enfim, aqueles aspectos da experiência limite que mais nos são familiares ficam obscurecidos com a exposição do mal mais radical. O que é um pouco limitativo para a aposta documentarista dos dois filmes e, em rigor, lhe confere um traço de ficção (que não o é).
Talvez esses aspectos sobressaiam em Dúvida, que parece ser uma daquelas histórias tão comuns na vida diária, sob muitas formas. Para os que pensam que em Portugal é difícil despedir, como se não bastasse deixar de cumprir os compromissos, deve ser esclarecedor. O mal dos espectadores será pouca coisa se comparado com o hitleriano ou o fundamentalista religioso, mas merece também atenção, documental ou não.

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quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Amores de Salazar


A série foi-se e veio-se rapidamente - uma rapidinha. Algo de que a série sugere Salazar também seria devoto. Credível?

Incrível foi ver Felícia Cabrita colocar a hipótese de reclamar plágio e pagamento direitos de autor sobre o seu livro de histórias de amor salazaristas. O dito cujo (livro) teria factos inéditos que a série incluiria. Ora, plágio de enredo só pode existir em obras de ficção – ninguém é dono de factos, por mais inéditos que até então tivessem sido. Portanto Felícia parece querer fazer-nos crer que escreveu - afinal - ficção.

Credível Salazar? Aí concordo com Cabrita: a série sofre do problema inverso do Equador. Enquanto em Equador o personagem principal está credivelmente esgalhado, mas alguns dos secundários falham (não sendo esse o caso de Sousa Tavares, aparentemente fazendo de seu bisavô, o Conde de Mafra, em caçada com D. Carlos). Nos Amores de Salazar os secundários são geralmente bons – gosto especialmente de Cerejeira. Mas o actor principal morre debaixo de cadavérica maquillage. Só faltou mesmo a revelação de que afinal Salazar era drácula e mordia as suas das vítimas feminias. Aliás, um (re)toque que talvez servisse para saltarem as audiências (talvez ainda vá a tempo do filme).

Credíveis os amores de Salazar? Diria que pelo menos pouparem-nos à ideia de um caso carnal com a governanta - D.Maria. Isso salva alguma credibilidade: não creio que ele ou ela gostassem de se ver nesse papel de novela barata, fosse na vida real ou numa série de TV. Quanto ao resto não sei.
Como historiador apenas direi que é claro que Salazar gostava do convívio feminino. As fontes para eventuais relações mais profundas são geralmente indirectas - filhos ou conhecidos das ditas senhoras, que teriam talvez interesse em valorizar-se por essa via. Mas que as senhoras pesavam nele alguma coisa, sobre isso tenho (mais uma) fonte indirecta, mas que considero credível. O embaixador António de Faria, que nunca escondeu a sua simpatia pelo dito , afirmou-me que muito do interesse de Salazar em fazê-lo ir da embaixada junto do Vaticano para Londres derivava do facto de ter prometido o lugar vaticano a um Visconde pai de umas amigas suas...
Todos temos as nossas fraquezas. Nesse caso teria sido Franco Nogueira a vetar a ideia, com o argumento de que em 1968 as relações do Estado Novo com o Vaticano eram demasiado tensas para ficarem entregues a um amador. E assim foi para lá Eduardo Brazão, e as relações continuaram a piorar até ao 25 de Abril. The End.
PS - E para entrar em polémica, não sei se concordo com Deus - que evidentemente se pronunciou sobre o assunto - o poder (dizem) é um grande afrodisíaco.

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terça-feira, fevereiro 10, 2009

Quando começa a educação?

Se é verdade o que dizem que o homem pode e deve continuar ao longo da sua vida a instruir-se, a formar-se, a qualificar-se, a progredir nas suas relações com os outros e com a sociedade, então parece-me que se torna óbvio que os conceitos, as estruturas e os processos educativos terão de ser radicalmente modificados. É a própria concepção do processo de aprendizagem que é posta em questão, exigindo mudanças profundas nos fundamentos e no funcionamento das estruturas existentes. Qual é, com efeito, o objectivo da educação ao nível primário, secundário e universitário? Provalvelmente dir-me-ão: equipar o futuro adulto, preparando-o para desempenhar os papéis que tiver que assumir ao longo da sua existência.
O problema com esta perspectiva discursiva das ciências da educação é que a educação propõe-se, sobretudo, a rechear as cabeças dos adolescentes com noções tão abundantes quanto possível, na esperança de que eles recorram a esse capital acumulado para que a sua vida seja bem sucedida. Mas, se, pelo contrário, considerarmos a educação como um processo contínuo que se prolonga ao longo de toda a existência, o papel da escola é radicalmente modificado. A educação começa, de facto, para além da idade escolar, quando o homem se torna sujeito da sua própria formação, dispondo das motivações necessárias para continuar a instruir-se e a desenvolver-se.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

A cova a quem a trabalha

Há poucas semanas, na Assembleia da República, a (des)propósito da forma de cálculo para a idade de reforma, Francisco Louçã falava de um «castigo» imposto pelo governo aos trabalhadores, a obrigação de trabalharem mais dois ou três meses para a reforma.
Este fim de semana, no encontro do BE, Louçã reviu a doutrina: «dois coelhos enfiados numa cova são diferentes de duas notas porque as notas nada fazem, são mero capital, mas os coelhos trabalham» (cito de memória, o original encontra-se aqui). Rico trabalho, sem dúvida. Todo o exercício retórico é, aliás, um primor.

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quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Desventuras da socialista

Para quem ainda se surpreenda com os títulos do Público (como o de hoje, «Sócrates procura nas bases o conforto dos "camaradas"»), vale a pena também prestar atenção ao interior.
Na secção do P2, «em estreia», encontra-se esta pérola a propósito do filme Valquíria:
«O coronel Stauffenberg sempre foi fiel ao seu país, o qual serviu com orgulho. Mas ao ver Hitler precipitar a Alemanha e a Europa no caos, começa a acreditar que é preciso passar à acção e travar o líder da Nacional Socialista. Em 1943, organiza uma conspiração para matar o Führer, a Operação Valquíria.»
Bem sei que há secções inteiras do Público feitas por estagiários, press releases e trabalhos da Lusa, mas ao menos que o treino não confunda o veículo de Belmiro com o 5Dias...

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