sábado, fevereiro 21, 2009

States of Mind

Confirmei com os meus próprios olhos que a simples eleição de Obama não levou, para já, a mudanças revolucionárias nos States.
Felizmente em alguns casos. Graças a Deus ainda há magníficos coros nas missas de Domingo, e french toasts para o pequeno-almoço, que não se fazem melhor em sítio nenhum (nem mesmo em França).
Infelizmente, provando que não há milagres em política, a equipa Obama - talvez levada pela sempre temorosa hybris da vitória - cometeu alguns erros nas nomeações para o seu gabinete. O suposto "Czar da Saúde", e antigo líder dos democratas no senado, Tom Daschle, foi uma baixa importante. A reforma da política de saúde é um problema prioritário para a sanidade dos EUA e ele seria a pessoa ideal para a fazer passar pelo Congresso. Ideal se, como se veio a descobrir, não tivesse deixado uma quantia significativa de impostos por pagar.
Erros todos cometemos, mas a política americana é particularmente implacável e este tipo de coisa é geralmente fatal. (Apesar disso o Secretário do Tesouro, beneficiando ainda do capital político de Obama e do pânico da crise, foi confirmado pelo Senado).
Politicamente estes problemas fiscais da nova equipa Obama deram oportunidade - mais uma prova de que não há milagres em política - aos Republicanos para começar a contra-atacar dizendo que os Democratas querem sempre subir os impostos (apenas os dos mais ricos, mas isso é esquecido) por que não tencionam pagá-los! O humorista democrata Bill Maher juntou-se à festa dizendo que Obama aparentemente não conhecia ninguém que tivesse pagos os seus impostos!
Mas a verdade é que uma certa mudança nas mentalidades é visível: o Estado deixou de ser visto tanto como o inimigo, e mais como uma alomofada necessária para amortecer a crise.
Mas para isso resultar numa mudança real e duradoira é necessário saber aproveitar politicamente o momento de forma inteligente, pragmática, e que dê resultados práticos, reformando o Estado para o tornar mais eficaz (o Wilson Quarterly faz um dossier precisamente em torno deste tema, perguntando muito americanamente: Must Government Be Incompetent?).
Em suma trata-se de retomar os esforços progressista da Terceira Via que afinal a Newsweek (e muitos orfãos do marxismo-leninismo, mais uma vez) tinham precocemente enterrado. O tema de capa aqui há uns meses era o fim da social-democracia na Europa. (A hybris também existe na análise e na imprensa, não é exclusivo da política). Agora a mesma revista afirma na capa que afinal todos - graças a Obama e à crise - nos estamos a tornar socialistas!
Para além desta ainda frágil possibilidade de mudança substancial, é notável também na sempre reveladora publicidade o peso dos anúncios de recrutamento para as forças armadas. E vem de par do anúncio que qualquer residente legal nos EUA ao fim de dois anos pode passar a ser recrutado e ganhar a cidadania em seis meses. As legiões da nova Roma a imitar a antiga? Notáveis ainda pela quantidade os anúncios a empresas de renegociação da dívida.
Os EUA de Obama, como os de Bush, precisam de mais soldados e de menos dívida. Veremos como Obama e o seu pacote recém aprovado pelo Congresso (quase sem apoio dos Republicanos) enfrenta o desafio. Está no ar (hybris?) a ideia de que este momento de crise pode dar aos Democratas a possibilidade de repetir o feito de FDR (o Roosevelt do New Deal - fala-se recorrentemente de um New New Deal) e reconfigurar a paisagem política americana duradoramente em seu favor. Um outro paralelo possível, que ninguém quer recordar, no entanto, é o reformismo do presidente Lyndon Johnson que acabou afogado em sangue nas selvas no Vietname. Esperemos que - graças aos talentos de Hoolbrooke e Petraeus - o mesmo não suceda com Obama nas montanhas agrestes do Afeganistão.

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2 Comments:

Blogger Carlos Santos disse...

Caro amigo,

Excelente post. Discordo num ponto: a mudança na política externa é clara e a Índia está a sentir isso. Como já sentiu a Inglaterra e a Europa sentirá fortemente. Se quiser ler o que me leva a dizer isto fica o convite:
http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/02/af-pak-india-china-e-europa-na-politica.html

Abraço
Carlos Santos

2:59 da manhã  
Blogger Diogo disse...

No Daily Show, Jon Stewart mostra-se, neste VÍDEO legendado em português, sarcasticamente optimista quanto às promessas de liberdades civis anunciadas por Barack Obama. Este afirmara numa conferência de imprensa que Guantánamo seria encerrada dentro de menos de um ano.

Jon Stewart: Um ano? Não quero ser idiota, mas… é preciso empacotar muita coisa para fechar? Há lá um colchão, alguns Alcorões… Digo-te, a Moiches (empresa de mudanças) faz isso numa tarde.


Num número de ventriloquismo, Stewart entabula um diálogo com o boneco Gitmo [um prisioneiro de Guantánamo]

Jon Stewart: Com mais informações sobre o encerramento desta prisão infame, temos o nosso homem no interior da prisão, o detido de Guantánamo, Gitmo. Muito obrigado por estares connosco, Gitmo, tu já estás preso em Guantánamo há algum tempo. Deve ser um dia feliz para ti.

Gitmo: Gitmo não estar muito satisfeito. Terem dito a Gitmo muitas vezes que ele vai voltar para casa. Gitmo saber ser uma técnica para abalar o Gitmo.

Jon Stewart: Não! A sério, Gitmo, é verdade! O presidente Obama já começou a encerrar Guantánamo. Até já acabou com as técnicas de interrogatório avançadas.

Gitmo: A sério? Então porque é que Gitmo ainda ter mão enfiada no rabo?

Jon Stewart: Gitmo, finalmente estamos a tentar fazer o que está certo.

Gitmo: Está bem. Gitmo dar-vos benefício da dúvida. Mas para onde enviam Gitmo? Não poder libertar Gitmo. Gitmo ser louco agora.

Jon Stewart: Gitmo, ainda estamos a tratar dos pormenores. Mas é uma nova era, Gitmo. Na América deixámos de sacrificar as liberdades civis na guerra contra o terrorismo. O presidente Obama disse isso.

Gitmo: Sim! Gitmo adorar presidente Obama! Finalmente Gitmo ver promessa da América! É um novo começo para todos nós! Sim!

Jon Stewart: Ainda bem que sentes isso, Gitmo. Acho que ultrapassámos a crise. Sabem disso, certo?

Gitmo: Sabes, Gitmo e os amigos de Gitmo continuam a querer matar-vos. Queremos destruir o vosso estilo de vida.

Jon Stewart: Sim, nós sabemos, Gitmo, mas com estes abusos fazemos isso por vocês.

Gitmo: Não estão seguros… Não querem estar seguros?

Jon Stewart: Gitmo, não existe segurança! Façamos nós o que fizermos, a nossa segurança não está garantida. É esse o preço a pagar por uma sociedade livre. Finalmente vamos fazer o que está certo.

Gitmo: Sou muito assustador…

Jon Stewart: Gitmo, isto não tem nada a ver contigo. Não podes definir-nos. Trata-se de não deixar que o medo faça isso.

Gitmo: Correio! [Gitmo entrega uma carta a Jon Stewart que a abre e donde sai um pó branco].

Jon Stewart: Isto é antrax?

Gitmor: Não... Açúcar em pó. Mas não querem bisbilhotar o correio de toda a gente agora?

Jon Stewart: Não. Podemos salvaguardar-nos bem com tácticas inteligentes e legais.

Gitmo: Deixo-vos em paz se me arranjarem virgens…


VÍDEO legendado em português

10:35 da tarde  

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