segunda-feira, julho 23, 2007

A minha utopia geo-político-cultural



Tal como Saramago, eu também tenho uma utopia geo-político-cultural. Primeiro passo: dar a independência à Madeira. Melhor: negociar com Espanha e trocar a Madeira pelas Canárias. Depois formar a Federação Hispânico-Atlântica. Os portugueses do continente integrariam a FHA, juntamente com a Galiza, os Açores, as Canárias e Cabo Verde. Os espanhóis tinham de resolver o problema do país basco, suportar a Madeira e aturar Saramago. Alguém duvida de que ficávamos a ganhar?

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Saramago e Salazar na Jangada de Pedra

Uma das ironias que passou despercebida no devaneio de Saramago da Jangada de Pedra, é que ela reproduziu à esquerda, quarenta anos depois, um sonho de Salazar. Após a queda dos fascismo durante a II Grande Guerra, o ditador português tentou construir uma aliança diplomática entre as ditaduras ibéricas e o Estado Novo de Getúlio Vargas que resistisse aos ventos de democratização no mundo latino. Pedro Teotónio Pereira foi colocado como Embaixador no Brasil com essa esperança. Teve azar. No início de 1946 Eurico Gaspar Dutra tomou posse como Presidente da República eleito, sucedendo ao ditador Getúlio Vargas. Em 15 de Janeiro desse ano, Pedro Teotónio Pereira tentava consolar-se escrevendo a Salazar: «Algumas pessoas sensatas com quem tenho falado, são da opinião que o General Dutra usará de medidas violentas para restituir um pouco de serenidade e disciplina a este meio em ebulição. Parece que a febre actual vem mais pronunciadamente dos últimos meses de Verão e que foram os fumos democráticos que deram com esta gente em doida.»

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Espanha não é aqui

A defesa por Saramago da fusão de Portugal e de Espanha numa «Ibéria» causou visível irritação patriota. A publicação, há mais de vinte anos, da Jangada de Pedra parece que foi recebida sem grande polémica. Saramago ainda não era Nobel, ainda não tinha deslocalizado a produção literária para Lanzarote. Era apenas um entre muitos outros escritores, distinguindo-se por Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis terem saído há poucos anos e ser um autor em fase ascendente. Mas outra razão pesava para que Jangada de Pedra fosse recebida com benevolência. Uma década após o fim do PREC e um ano depois da assinatura do tratado de adesão de Portugal à CEE, o romance era o esboço de uma utopia geopolítica em alternativa ao capitalismo que nos chegaria inevitavelmente da Europa. A Península Ibérica descolava-se dos Pirinéus e lançava-se ao Atlântico, rumo a uma América Latina onde ainda era o socialismo revolucionário ainda parecia possível.
Hoje um Portugal província de Espanha seria apenas menos Portugal, igual Europa, igual ou mais burocracia, talvez ainda menos utopia, certamente mais «Hola». Em vez de um Presidente da República teríamos uma monarquia ibérica. A discussão do relacionamento entre Lisboa e Madrid centrar-se-iam nas inclinações sentimentais que poderiam unir os filhos de Filipe e Letizia aos filhos de D. Duarte e D. Isabel Herédia. Uma consequência prática destas especulações seriam os nossos candidatos a Rei deixarem cair o «D.» para os seus nomes ficarem melhor nas capas da «Hola», criando uma imagem mais leve, mais informal, enfim, de agrado peninsular.

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