segunda-feira, julho 23, 2007

Saramago e Salazar na Jangada de Pedra

Uma das ironias que passou despercebida no devaneio de Saramago da Jangada de Pedra, é que ela reproduziu à esquerda, quarenta anos depois, um sonho de Salazar. Após a queda dos fascismo durante a II Grande Guerra, o ditador português tentou construir uma aliança diplomática entre as ditaduras ibéricas e o Estado Novo de Getúlio Vargas que resistisse aos ventos de democratização no mundo latino. Pedro Teotónio Pereira foi colocado como Embaixador no Brasil com essa esperança. Teve azar. No início de 1946 Eurico Gaspar Dutra tomou posse como Presidente da República eleito, sucedendo ao ditador Getúlio Vargas. Em 15 de Janeiro desse ano, Pedro Teotónio Pereira tentava consolar-se escrevendo a Salazar: «Algumas pessoas sensatas com quem tenho falado, são da opinião que o General Dutra usará de medidas violentas para restituir um pouco de serenidade e disciplina a este meio em ebulição. Parece que a febre actual vem mais pronunciadamente dos últimos meses de Verão e que foram os fumos democráticos que deram com esta gente em doida.»

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4 Comments:

Blogger Fernando Martins disse...

Não quero ensinar o padre nosso ao vigário, mas convém recordar que o Brasil da Constituição de 1946 não era democrático porque recusava o sufrágio universal (os analfabetos não votavam). Por outro lado, o Brasil autoritário dos anos 30 e até ao fim da guerra, como o Brasil "democrático" pós-1945 eram profundamente nacionalistas. Com esse fenómeno se confrontou Theotónio Pereira no Brasil e não gostou. Finalmente, o Brasil "democrático" elegeu Getúlio Vargas para a presidência da República em 1950.

11:23 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Bem vindo como comentador ao blogue que já foi nosso. Quanto ao comentário própriamente dito, parece-me aplicar um critério demasiado restrito excluir do conceito de democracia todos os regimes sem sufrágio universal. Com esse critério não tínhamos democracias no século XIX. Theotónio Pereira não gostou do nacionalismo brasileiro, mas também não gostou nada da liberdade de imprensa, da atenção que era dada aos exilados políticos portugueses e do que ele via como uma tendência democratizadora. Getúlio Vargas foi eleito em 1950, mas não na década de 40. Não sei como é que essa eleição foi recebida pelo Estado Novo. O que sei é que Theotónio Pereira não gostou nada da evolução constitucional de 1946 no Brasil.

4:55 da tarde  
Blogger Fernando Martins disse...

Quando falamos de democracia o Século XIX é uma coisa, o pós-segunda guerra mundial é outra. O século XIX, liberal, nunca supôs, e até recusou, como sabes, o princípio do sufrágio universal (não proprietários e mulheres, por exemplo, não podiam nem deviam votar nem ser eleitos). A partir da Grande Guerra as coisas foram mudando (curiosamente não no seio da nossa saudosa República Democrática) e depois da Segunda Guerra nem se fala. De facto, o Brasil só conheceu o sufrágio universal após a queda da Ditadura Militar. Que Pedro Theotónio Pereira não gostou do Brasil "democrático" é óbvio que não. Nem podia. O homem odiava a democracia, excepto no norte da Europa ou nos EUA. A democracia, pensava ele, não era povos latinos, como hoje muita gente pensa que não é nem nunca será para os "árabes". Um abraço!

10:42 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Um abraço. Gostei da reintrodução no blogue de um pouco de controvérsia.

2:59 da tarde  

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