A minha utopia geo-político-cultural

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A defesa por Saramago da fusão de Portugal e de Espanha numa «Ibéria» causou visível irritação patriota. A publicação, há mais de vinte anos, da Jangada de Pedra parece que foi recebida sem grande polémica. Saramago ainda não era Nobel, ainda não tinha deslocalizado a produção literária para Lanzarote. Era apenas um entre muitos outros escritores, distinguindo-se por Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis terem saído há poucos anos e ser um autor em fase ascendente. Mas outra razão pesava para que Jangada de Pedra fosse recebida com benevolência. Uma década após o fim do PREC e um ano depois da assinatura do tratado de adesão de Portugal à CEE, o romance era o esboço de uma utopia geopolítica em alternativa ao capitalismo que nos chegaria inevitavelmente da Europa. A Península Ibérica descolava-se dos Pirinéus e lançava-se ao Atlântico, rumo a uma América Latina onde ainda era o socialismo revolucionário ainda parecia possível.