sexta-feira, dezembro 11, 2009

Clássicos para o Povo: A Pessoa de que se fala

D. Manuel Clemente é o Prémio Pessoa deste ano, o que quer dizer que, pela segunda vez, tenho a satisfação de conhecer e ter consideração e amizade por obras e pessoas altamente consideradas.
Teologia também é cultura, claro está, mas tanto ou mais que teólogo o Professor Manuel Clemente foi (e será, esperamos) um historiador importante e um ensaísta interessado. Numa época em que, por vezes, parece que ser-se crente passou de obrigação a proibição, em que há quem queira preservar o espaço público de qualquer contaminação religiosa (a não ser que venha multiculturalmente envernizada de uma patine exótica); mas em que também não raro as igrejas reagem fechando-se em proibições e anátemas purificadores, uma pessoa com o percurso e o perfil do actual bispo do Porto ganha redobrada importância.
Um importante historiador do religioso – sem sombras da velha historigrafia apologética (clerical ou anti-clerical) – foi uma figura marcante no avanço da História nesse campo pouco explorado (e mesmo quase tabu em Portugal, por razões mais clericais ou anti-clericais), mas incontornável: o do estudo das religiões. Com uma obra centrada sobretudo no século XIX e XX, período conturbado, pouco consensual e quase nada estudado do catolicismo português, D. Manuel Clemente mostrou que a hagiografia de uma igreja sempre martirizada, ou os lamentos de um confissão de Estado confortavelmente instalada e dominadora, estavam, to say the least, longe de esgotar toda a verdade. Através de crises várias, o catolicismo português na sua diversidade, não deixou de evoluir em percursos diversos com os tempos como contra os tempos, de se modernizar e mobilizar para causas diversas.
Como director que foi do Centro de Estudos de História Religiosa marcou esta instituição numa época fundamental com o seu espírito de abertura e interesse activo por esta temática em toda a sua diversidade. O CEHR tornou-se um oásis de discussão com ampla abertura para jovens historiadores à procura de poiso (como eu) – evidentemente, sem que nunca lhes tenha sido perguntado de crenças ou descrenças religiosas, mas que trabalho tinham feito.


Tem também sido uma figura importante no sentido da preservação e disponibilização do património religioso em sentido amplo, incluindo os desprezados arquivos, o que é sempre complicado num país mais habituado à inauguração do que à manutenção.
Como Bispo do Porto não me cabe avaliá-lo, mas como pessoa devo-lhe um obrigado público que aqui fica, assim como sinceros parabéns.






PS - Para quem o quiser conhecer (e conhecer-nos, português-mente) um pouco melhor, a colecção de ensaios: Portugal e os Portugueses é a introdução ideal, um clássico recente, mas que como os clássicos, perdurará.

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segunda-feira, julho 14, 2008

Geremek 1932-2008 (historiador - polaco - europeu)


Bronislaw Geremek morreu num acidente de automóvel ontem.
Fica-nos o seu trabalho como um grande historiador da Idade Média, e um pioneiro dos estudos da marginalidade.
Fica-nos também o testemunho de uma vida de empenho cívico por uma Polónia livre numa Europa cada vez mais unida.

Demitiu-se do PC polaco em 1968 em protesto pela repressão da Primavera de Praga. Foi um dos líderes do Solidariedade, e como todo o bom amante da liberdade num regime autoritário acabou na cadeia, preso pelo regime comunista polaco. Foi depois um dos líderes da transição pacífica polaca, e um dos principais defensores integração da Polónia na UE, onde rapidamente se tornou uma figura referência, ultimamente no Parlamento Europeu e no Colégio da Europa, onde continuava a dar aulas.
Da última vez que esteve em Portugal, numa conferência do IEEI, lembrou que falar de democracia liberal, nunca é - e sobretudo à escala da Europa nunca poderá ser - remeter para a simples vontade da maioria. Há uma virtude democrática e liberal na negociação e no compromisso que merece ser sublinhada e que é indispensável numa Europa unida. Não se opunha a priori aos referendos como um dos instrumentos de legitimação democrática, mas para fazerem sentido a respeito da UE deveriam ser à escala europeia.

De um sentido de humor cortante, respondeu à propaganda demogógica pelo «Não» no último referendo europeu em França, que apontava para a alegada concorrência desleal dos canalizadores polacos como um dos exemplos dos malefícios da União (cito de memória): Deve ser para França que eles foram, que nós na Polónia não conseguimos encontrar um canalizador quando precisamos!

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quinta-feira, julho 03, 2008

Branquear ou Não Branquear? Eis uma falsa questão


A historian must not hesitate if his books lend aid and comfort to the Queen's enemies [...] or even the common enemies of mankind. For my part I would even record facts which told in favour of the British government if I had find any to record (goak again).
AJP Taylor, The Origins of the Second World War. (London : Penguin, 1991 [1963]).*

O livro do Manuel Loff que resultou nesta entrevista ao DN que o Carlos Leone me desafiou a comentar terá certamente (até pelo tamanho) alguns pontos de valor. Na entrevista ao DN, no entanto, Loff cai numa série de equívocos que se podem resumir no tipo de abordagem nacionalista ou progressista à história que Taylor critica.

O primeiro equívoco de Loff é o de que o historiador não deve branquear o regime fascista de Salazar. Ora, essa não é uma questão que se deva sequer colocar.

Se o conceito de fascismo é para ser usado como insulto político então, nesse sentido pejorativo, não tem lugar na história. Se é para ter alguma utilidade analítico, então os historiadores, politólogos, e cientistas sociais vários, devem ter toda a liberdade para discutir que sentido dão ao conceito de fascismo, e se é operacional a sua aplicação ao regime de Salazar (no todo ou em parte).

Loff cita na entrevista autores que são activistas políticos (e não historiadores) e que dizem que Salazar não é fascista, mas não para o branquear ou absolver (como o próprio Loff diz adiante) e sim para criticar Salazar. Ou seja, consideram que Salazar devia ser/ter sido fascista! Portanto, não vejo o que esta referência adiante ao argumento.

Salazar é, aparentemente, um fascista que nunca (como Loff acaba por deixar claro) afirmou sê-lo. Um fascista que não só prende fascistas, mas, sobretudo, acaba com o partido fascista (Nacional-Sindicalista) que existia em Portugal. É, no mínimo, um fascista problemático. Mas aparentemente não se pode problematizar. Não se pode chegar a outra conclusão que não seja que Salazar é fascista, se não branqueamos o ditador!

Finalmente, Loff refere como umas das grandes provas esquecidas de que Salazar era mesmo fascista um ofício de 1941 do Conde de Tovar (representante diplomático portugês na Berlim de Hitler), que a dada altura afirma que não há dois regimes mais semelhantes na Europa do que o Estado Novo e o III Reich!

Esta "prova" parece-me, pelo contrário, evidência dos problemas que a que este tipo de lógica de branqueamento e anti-branqueamento leva: a do historiador transformado em advogado de acusação, a quem apenas interessa arranjar declarações incriminatórias. Tovar diz isso? E então? Isso só mostra que trabalhava para aproximar Portugal e a Alemanha. Pode um historiador simplesmente tomar à letra um tal ofício, quando ele é tão manifestamente falso? Algum historiador pode afirmar seriamente que o Estado Novo era, em 1941, o regime mais próximo que havia na Europa ao III Reich?

Mais uma vez a implicação da entrevista de Manuel Loff parece ser que quem se atreva a levantar estas pequenas questões está a branquear o Estado Novo.

Toda esta discussão me parece deslocada. Não creio que haja algum historiador do Estado Novo que rejeite a ideia de que Salazar foi um ditador, fundador e líder de um regime autoritário e repressivo. Está-se a criar uma falsa questão.

Até admito que haja aqui boas intenções. No entanto, a ser assim, elas confundem duas coisas fundamentalmente distintas. O trabalho político de formação de cidadãos, que incluirá uma certa memória valorativa do passado, selectiva e até militante. E o trabalho da história, que no campo da memória deve apenas preocupar-se com a divulgação científica de qualidade.

O contributo da história para a democracia – e apenas por arrastamento feliz - será o de formar pessoas com uma boa consciência crítica, bem informados, habituados a conviver com a complexidade. A história não deve estar ao serviço de nada, nem de ninguém, nem sequer das boas causas (isso fica para a doutrinação ou a hagiografia ou a propaganda, todas elas perfeitamente legítimas no seu campo.) O historiador não deve branquear, nem escurecer.

* Claro que o próprio Taylor pode ser criticado por ter violado princípios do rigor crítico em nome de teses preconcebidas e de frases bem esgalhadas (nomeadamente no próprio Origins). Mas essas são críticas justificadas: a par de análise arrojadas Taylor embarca em contradições insanáveis e omissões inexplicáveis. As críticas que lhe foram feitas e a que ele aqui responde - de querer branquear Hitler -, essas não faziam nenhum sentido. (Aliás, é sempre mais fácil dar um bom conselho do que segui-lo.)

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segunda-feira, maio 05, 2008

Charles «Chuck» Tilly (1929-2008)

Morreu um dos maiores cientistas sociais do século XX, e um dos que certamente dará mais trabalho ao século XXI, um dos nomes grandes da sociologia histórica: Charles Tilly, ou «Chuck» Tilly, como gostava de ser tratado. Assim se apresentou a mim depois de nos cruzarmos numa conferência em que lhe levantei um par de objecções que ele quis discutir mais a fundo. Nos testemunhos que li de quem o conheceu realmente vejo sublinhados traços que também me impressionaram nesse breve encontro: a curiosidade intelectual, a disponibilidade para discutir as suas próprias teses e ouvir as dos outros.

Basta olhar para qualquer CV ou bibliografia para ver como, com os seus 78 anos, continuava a ser uma força da natureza. (Nesse encontro falei-lhe do seu último livro, e ele logo me corrigiu, «último não, já saiu outro!»)

Infelizmente só uma obra sua parece ter sido traduzida para português (aparentemente por fazer parte de uma colecção traduzida na íntegra) e parece estar esgotada. É pena. Ele até tem livros para todos os gostos e todas as carteiras. Num dos últimos - intitulado: Why? - dedicou-se a procurar uma tipologia básica das explicações que damos a nós próprios e aos outros pelas nossas acções.

Um cientista social incontornável para quem queira pensar o Estado e a Violência, um pensador deleitoso de ler para quem goste de análise ambiciosa, arriscada, interdisciplinar, comparativa.

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sexta-feira, maio 25, 2007

Leituras para o Povo: Gabinetes de Imagem no tempo de Luís XIV


Vi nas livrarias a tradução portuguesa da obra de Peter Burke, A Fabricação do Rei : A construção da imagem pública de Luís XIV, embora na net só tenha encontrado referências à edição brasileira. Seja em português de aquém ou além Atlântico (o autor até é casado com uma brasileira), ou no original inglês, Burke é um excelente historiador da cultura e foi um professor que muito apreciei. A obra, que não li na versão lusa, promete, em todo o caso, cruzar interesses de povos frequentemente desencontrados: os fãs da história da arte, e os adeptos do estudo da política.
Talvez a obra de Burke também permita que em Portugal se deixe de dizer (ignorantemente) que hoje os políticos são publicitados como se fossem champôs. Para se dizer (mais correctamente) que hoje os champôs e até a mais irritante lixivia têm ao seu serviço uma máquina de propaganda que durante milhares de anos foi reservada apenas aos reis. É que nunca (em tempo algum) houve políticos de sucesso que tivessem descuidado da sua imagem. Mudaram-se as vestimentas (muito) e os meios (alguma coisa), mudaram-se os temas (bastante menos), mas a preocupação com projectar a imagem certa junto do povo permanece. Qual é o político que em democracia que se pode dar ao luxo de projectar um má imagem junto do povo que o elege? E afinal, em geral, quem é que gosta de parecer mal?

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quarta-feira, abril 25, 2007

25 de Abril Hoje


Já houve tempos em que o 25 de Abril era objecto de controvérsia entre a esquerda e a direita. Hoje, depois do Iraque, as coisas mudaram. Afinal é evidente para todos que a liberdade e a democracia em Portugal custou bem menos, foi bem mais rápida a consolidar-se do que no infeliz Iraque. Onde, além dos terríveis custos em vidas e trabalhos o resultado final é tudo menos certo. Portanto, estou seguro de que a direita nacional que tanto se empenhou na causa da liberdade no Iraque, custasse o que custasse, não irá mais insistir nos pobres custos da nossa revolução democrática.

Quanto à história, muito há a fazer. (E, claro, tudo se pode e deve questionar e analisar.) Mas também já alguma coisa se vai fazendo. Destaco dois livros de colegas e amigas. Da Inácia Rezola, acabadinho de publicar, está ainda fresquinha uma bonita e útil síntese interpretativa, de leitura fácil (o que é muito díficil de conseguir), que faz o estado da questão em relação às questões essenciais do 25 de Abril. Da Paula Borges Santos temos um estudo detalhado, a pretexto do caso da Rádio Renascença, da relação bem mais complexa do que se imagina entre actores revolucionários e católicos, entre capitães e bispos, entre militantes e leigos. E ainda, de um investigador que não conheço, mas numa revista que conheço bem, um tema que muito me interessa: Tiago Moreira de Sá estuda os Americanos perdidos na Revolução Portuguesa no último número das RI. É comprar, ler e gostar (ou não, afinal, estamos em democracia).

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terça-feira, abril 17, 2007

Notre Siècle

Assinalou Pedro Mexia, lembrou Hugo Billard. Tempos inclementes para a historiografia gaulesa: primeiro Pierre Vidal-Naquet, depois Jacques Ozouf, há poucos meses Jean Pierre Vernant, agora René Remond. Que os que se lhes seguem os honrem.

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