quinta-feira, dezembro 06, 2007

A inconstância laranja

Não me precipitei a lançar mão da palavra «populismo» para caracterizar Luís Filipe Menezes. Conheço mal o político. Se tivesse que recorrer ao pouco que conheço para desenhar uma escala de populismo no PSD colocava no topo Alberto João Jardim; alguns pontos abaixo Pedro Santana Lopes. E Luís Filipe Menezes abaixo de Santana Lopes. A merecer o benefício da dúvida, portanto. O recente episódio de aprovação de um empréstimo na câmara municipal de Lisboa esclareceu as dúvidas no pior sentido. Não se percebe como é que o PSD aprova o Plano de Saneamento Financeiro, que prevê não só o empréstimo de 360 milhões de euros com o objectivo de pagar a fornecedores, mas também discrimina e justifica mais uma tranche de 140 milhões de euros, para depois se revoltar contra o empréstimo. Acresce que 98,2 por cento da dívida em causa fora contraída durante o exercício do poder camarário pelo PSD. A solução encontrada para a crise aberta pelo PSD é «morna», que é como quem diz, nem aquece nem arrefece, não é pão nem queijo, não afirma nem rejeita: o PSD acordou em abster-se se o montante do empréstimo encolhesse para 400 milhões de euros.
Quem sai bem desta crise é António Costa. Mostra-se pragmático sem abdicar de princípios e capaz de liderar um projecto numa câmara balcanizada, unindo uma esquerda fragmentada e neutralizando os adversários à direita. Não precisava de ameaçar demitir-se? A questão é que, até prova em contrário, estava mesmo disposto a demitir-se caso não tivesse condições de cumprir as promessas feitas aos eleitores. Uma atitude exemplar e meritória num país em que os políticos se viciam em mentir a si mesmos acerca do cumprimento de promessas.

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sexta-feira, outubro 12, 2007

O PNR e a banalidade do mal

Não escrevi nada sobre a profanação do cemitério israelita em Lisboa, em 25 de Setembro passado, por uma razão comezinha: nessa altura estava fora do país e com o acesso à Internet limitado. Quando voltei e li alguns comentários comecei a tomar consciência de outra dificuldade em comentar o assunto. Eu podia subscrever qualquer comentário crítico. Nada podia acrescentar ao que já estava escrito ou escrever que não fosse óbvio.
Foi preciso deixar passar alguns dias para ver confirmado o que no fundo já sabia: mesmo o óbvio pode ser ofuscado pela «banalidade do mal», na conhecida expressão de Hannah Arendt. Primeiro apareceram na blogosfera textos opinando que os ministros não apareceriam num «idêntico» acto de vandalismo num cemitério cristão. Agora é o cartaz do PNR no Marquês a dizer «Este sistema liberta pedófilos, violadores e assassinos mas persegue os nacionalistas». Entre os nacionalistas «perseguidos», convém lembrar, estão os vândalos do cemitério israelita, membros dos Hammerskins, dos quais Mário Machado é o líder em Portugal.
Um acto de vandalismo num cemitério, laico ou de qualquer confissão religiosa, é sempre grave. Mas para que um acto de vandalismo num cemitério cristão tivesse um significado «idêntico» ao praticado no cemitério israelita eram necessário reunir diversos factores que, apesar de óbvios, têm de ser enumerados: o cemitério devia encontrar-se num país maioritariamente não-cristão e com um passado de perseguição violenta a cristãos. Os vândalos deviam pertencer a movimentos que, num passado recente, tivessem assassinado membros de outras minorias. As campas seriam pinchadas com símbolos anti-cristãos. Não consigo imaginar nenhum que corresponda ao sentido da cruz suástica para os judeus. O mais aproximado seriam os leões do coliseu romano, do tempo em que faziam mártires cristãos. E mesmo assim a comparação é frouxa, porque só os eruditos é que percebiam o alcance do símbolo e os romanos nunca tiveram uma «solução final» para os cristãos, nem podiam ter, pois não se nasce cristão como se nasce judeu. Por fim, um partido legal desse país, poria um cartaz num dos lugares mais visíveis da capital, com uma mensagem ambígua, que podia ser interpretada como solidária com os vândalos e acusando os Governo de persegui-los.
O cartaz do Marquês de Pombal devia ser retirado, no mínimo, por atentado ao pudor.

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segunda-feira, outubro 01, 2007

Nogueira Pinto condenada na CML

Maria José Nogueira Pinto foi condenada a 25 de Setembro passado, na assembleia municipal de Lisboa, por causa da sua proposta da criação de uma «Chinatown» no Martim Moniz. Regressado a Portugal após duas semanas de ausência, congratulo-me por as notícias de política nacional não se limitarem à reabilitação de Santana Lopes como «reserva moral» e às guerras intestinas do PSD.
A condenação foi proposta numa moção apresentada pelo BE, tendo em conta as declarações proferidas e que Maria José Nogueira Pinto era falada como possível escolha da CML para comissária do projecto de revitalização da Baixa-Chiado. A moção recebeu votos favoráveis do PS, dos Verdes, do PCP, do BE e do CDS/PP. No PSD houve votos contra e abstenções. O texto dos dois pontos aprovados é o seguinte:
«1. Condenar as referidas declarações e rejeitar aos propostas avançadas pela Dr.ª Maria José Nogueira Pinto, por serem contrárias ao Princípio da Igualdade e da não discriminação em função da etnia ou território de origem, e sugerirem a violação de direitos fundamentais;
2. Recomendar ao executivo municipal que, no processo de nomeação para cargos ou de órgãos de responsabilidade público, seja exigido aos seus titulares um claro compromisso de salvaguarda do Princípio da Igualdade enquanto valor fundamental da nossa democracia.»
Apesar dos problemas decorrentes da fragmentação partidária e da dificuldade em criar alianças na Câmara Municipal de Lisboa, é possível salvaguardar os princípios de um Estado democrático, evitando que a vontade dos eleitores e direitos fundamentais sejam distorcidos por jogos de bastidores e personalidades influentes. Assim continue a ser.




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