segunda-feira, novembro 26, 2007

Delírios de estilo

O Público tem feito uma cobertura sóbria sobre o desaparecimento da Maddie, mas na edição de hoje os jornalistas que assinam a peça entram em delírio escrevendo tiradas de mau gosto. Vejamos: «Era fácil para quem observasse saber exactamente a melhor altura para entrar no apartamento – no crepúsculo, quando Kate e Gerry se afastassem para jantar e o movimento diminuísse na rua. A oportunidade surgiria, seria fácil aproximar-se, tocar, cheirar a frágil menina loura e de olhos grandes».
Quanto à notícia em si, a reabilitação da hipótese de Maddie ter sido morta por um intruso, não altera em nada a minha opinião sobre o caso. Não perfilho nenhuma «teoria». O que conheço do caso é suficiente para saber que os MacCann foram negligentes e instigaram uma campanha contra a polícia portuguesa repleta de má fé e de acusações sem fundamento. Quanto ao que falta saber, preferia que Maddie estivesse viva e fosse encontrada. Infelizmente, todos os indícios apontam no sentido contrário.

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domingo, novembro 04, 2007

Leituras para a malta

Desde cedo achei que devia ler muito, tudo o que me caísse nas mãos e não apenas o que os outros me dissessem ser bom. Porém, não leio tanto como podia e sou por vezes surpreendido pelo que os outros lêem. Segundo consta, o Vasco Pulido Valente escreveu uma crónica nos anos 80 declarando que, em férias, entretinha-se a ler a lista telefónica vestido de pijama. Ao ver a reportagem na televisão sobre os seis meses de desaparecimento da Maddie fiquei a saber que a polícia encontrou no apartamento dos MacCann um manual de ocultação de cadáveres. A reportagem não esclareceu se o livro tinha parte sublinhadas e post-its com notas. Nenhum dos cônjuges, como é óbvio, leu o livro com o objectivo de saber o que um eventual assassino da filha podia ter feito ao seu corpo, pois ambos estão convencidos de que Maddie está viva e provavelmente em Marrocos. Há gente capaz de (ler) tudo.

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quarta-feira, outubro 03, 2007

A novela global

Durante duas semanas em Roma privado de jornais portugueses, a informação acerca do meu país só me chegava através da novela global dos MacCann. Foi possível saber notícias no El País, recapitular a história na Time, ser interpelado pela manchete do Daily Express anunciando uma reviravolta da história, retomar o fio da meada no El País. A imprensa espanhola pareceu-me equilibrada no tratamento do caso; os tablóides britânicos ofensivos para Portugal; os norte-americanos influenciados pelos britânicos.
É impressionante que uma revista de qualidade como a Time acuse, na edição de 24 de Setembro, a polícia portuguesa de não revistar a saída de carros de Portugal (p. 36), variante soft da grave acusação de não ter fechado as fronteiras. Alguém devia explicar a estes senhores que, segunda a lei europeia – não portuguesa, europeia – as fronteiras não podem ser fechadas a não ser em casos excepcionais como ameaça terrorista ou de epidemia. E que se trata de uma lei racional, pois todos anos devem desaparecer centenas ou milhares de crianças na União Europeia. Se este critério fosse levado a sério as fronteiras estavam quase sempre fechadas. Mesmo que a fronteira fosse encerrada, a medida seria inútil, pois a Praia da Luz encontra-se a duas horas da fronteira e os MacCann avisaram a polícia portuguesa cinco horas após o desaparecimento de Madeleine, tendo telefonado primeiro à Sky News.
A 26 de Setembro a manchete do Daily Express foi que a fotografia de «uma menina loura muito assustada levada por um “gang” (sic) de marroquinos» estava a ser investigada pela polícia. Toda a história era rebobinada, mostrando como era evidente que Maddie estava viva em Marrocos e só não fora descoberta antes por causa da burrice e má-vontade da polícia portuguesa. Tratava-se já da quarta vez que Maddie era avistada em Marrocos. As duas primeiras aconteceram logo em 9 de Maio. No entanto, a polícia portuguesa não investigara devidamente nenhuma das pistas, deixando os McCanns «furiosos». O desfecho do episódio «Maddie em Marrocos» foi-me contado já em Portugal: um batalhão de polícias e jornalistas invadiu uma aldeia de berberes onde Maddie estaria sequestrada para descobrir que a «menina loura assustada» era berbere e o «gang» a sua família.
Até agora, só vi má-vontade na imprensa britânica. A polícia portuguesa pode ter cometido alguns erros e gerido pessimamente a relação com os jornalistas, mas está a consumir uma enormidade de recursos humanos, tempo e dinheiro com um caso que, como aliás reconhecia a Time, no mínimo foi causado por negligência dos pais. Confesso: em toda esta novela a vez em que me senti mais incomodado foi quando vi na televisão a revolta da mãe de uma criança desaparecida. Indignava-se porque a polícia não tinha feito para encontrar o filho dela um centésimo do que fazia para encontrar a Maddie. Quantos casos estão a ser menos investigados para que se investigue mais o caso de Madeleine?
Acerca do alegado envolvimento dos pais no desaparecimento de Maddie, não tenho nenhuma teoria. Constato é que fazem demasiadas acusações à polícia portuguesa para quem reivindica o estatuto de inocência até prova em contrário. Chegaram mesmo a desafiar a polícia portuguesa a provar que tinham morto Madeleine, quando são suspeitos de ocultação de cadáver, não de homicídio. Esta psicologia manipuladora, se não prova nada, chega para justificar a minha antipatia pelos MacCann.

PS Tinha pensado escrever este post há uma semana. A notícia da demissão de Gonçalo Amaral, o inspector do caso Madeleine, não me leva a alterar uma linha do que escrevi.

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