quarta-feira, abril 09, 2008

Notícia(s)

Hoje, pelas 18.30h, Maria Lúcia Lepecki apresenta na Biblioteca Nacional, em Lisboa, o escrito Lavagante, de José Cardoso Pires, editado postumamente pela recém-surgida edições nelsondematos. Na mesma ocasião, a BN assinala a recepção do espólio do escritor, doado pelas suas Herdeiras.
Já amanhã, mas em Évora, estreia no Teatro Garcia de Resende «Memórias de Branca Dias», de Miguel Real, adaptado por Filomena Oliveira. Permanece em cena até dia 4 de Maio.

(A avaliar pelo estudo sobre blogs divulgado ontem no DN, e que não vi comentado em blog nenhum, acho que estas notícias são bastante ociosas. Pois tanto melhor...)

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sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Lavagante. Encontro desabitado

«AJUDE-ME», tinha dito Cecília, no momento em que deixaram a adega e entraram no carro. E logo a seguir, encolhera-se na outra ponta do assento, distante do companheiro. “Preciso de si”, murmurou tristemente, como quem se confessa, fitando o limpa-pára-brisas a girar. Trraac, tac…trrac, tac…
Não se lhe via o rosto; o rosto estava oculto pela gola levantada do casaco. De cabeça apoiada no vidro da janela, a rapariga ia como um passageiro estremunhado. De olhos acesos, num silêncio de morte.
Trraac, tac…trraac, tac…o limpa-pára-brisas riscava num bater triste e igual as ruas da cidade, o Rossio, a Avenida, os operários que trabalhavam à luz dos holofotes, debaixo da chuva miúda.
Daniel conseguira mudar a face das coisas nesse fim de noite infeliz, e mudando-as, afastara para longe a lembrança do Sapo e o peso das confidências diante de duas ou três garrafas vazias e duma toalha traçada à faca pela mão inquieta duma jovem. Conseguira-o, felicitara-se por isso. Doutra maneira seria o strip-tease que conduz ao amor confessional e o amor confessional é a coisa mais complicada que Deus ao mundo deitou. Mas, e agora?»
PIRES, José Cardoso, Lavagante. Encontro desabitado, Lisboa, Edições Nelson de Matos, 2008, pp. 49-50.

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