sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Lavagante. Encontro desabitado

«AJUDE-ME», tinha dito Cecília, no momento em que deixaram a adega e entraram no carro. E logo a seguir, encolhera-se na outra ponta do assento, distante do companheiro. “Preciso de si”, murmurou tristemente, como quem se confessa, fitando o limpa-pára-brisas a girar. Trraac, tac…trrac, tac…
Não se lhe via o rosto; o rosto estava oculto pela gola levantada do casaco. De cabeça apoiada no vidro da janela, a rapariga ia como um passageiro estremunhado. De olhos acesos, num silêncio de morte.
Trraac, tac…trraac, tac…o limpa-pára-brisas riscava num bater triste e igual as ruas da cidade, o Rossio, a Avenida, os operários que trabalhavam à luz dos holofotes, debaixo da chuva miúda.
Daniel conseguira mudar a face das coisas nesse fim de noite infeliz, e mudando-as, afastara para longe a lembrança do Sapo e o peso das confidências diante de duas ou três garrafas vazias e duma toalha traçada à faca pela mão inquieta duma jovem. Conseguira-o, felicitara-se por isso. Doutra maneira seria o strip-tease que conduz ao amor confessional e o amor confessional é a coisa mais complicada que Deus ao mundo deitou. Mas, e agora?»
PIRES, José Cardoso, Lavagante. Encontro desabitado, Lisboa, Edições Nelson de Matos, 2008, pp. 49-50.

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