sábado, abril 05, 2008

As ilusões de narciso

Cinco anos depois da invasão do Iraque, José Pacheco Pereira gasta tinta e papel de jornais a defender o seu apoio a uma guerra legitimada por embustes. A esta distância a sua atitude é menos explicada por razões e argumentos do que por uma atitude que os esquerdistas dos anos 60 e 70 definiam na frase «Antes estar errado com Sartre do que ter razão com Aron». A variante que explica Pacheco Pereira seria qualquer coisa do género: «Antes estar errado com o Presidente dos Estados Unidos do que ter razão com comunistas e esquerdistas». É o narcisismo e o instinto de trincheira a prevalecer sobre a lucidez. A esta crítica pode objectar-se que as nossas escolhas nunca são inteiramente racionais. Que escolhemos sempre com quem estamos antes de escolhermos por que é que estamos. Mas nem todas as tomadas de posição são consequência da pertença a um determinado grupo. Há grupos que são formados pela soma de diversas tomadas de posição; há grupos que se definem mais por uma atitude do que por uma ideologia. Eu prefiro outra variante daquela máxima antiga: «Antes estar certo com um dissidente, no caso da guerra do Iraque um dissidente conservador, do que estar errado com um grupo de fanáticos.»

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segunda-feira, dezembro 24, 2007

A violência não é «cool»

Redacted é o filme mais surpreendente e desafiante que vi este ano. Foi também um violento murro no estômago e em algumas pessoas mostrou-se capaz de provocar tremendas agonias. Apesar da força do tema – a guerra no Iraque – a surpresa e o desafio provêm, em primeiro lugar, da forma: um filme que é um mosaico de registos visuais – câmaras vídeo portáteis, vídeos de segurança, vídeos e teleconferências na Internet, fragmentos de um documentário francês, reportagens de televisões parecidas com a CNN e com a Aljazira, etc. O cinema surge como a reconstituição maior de uma multiplicidade de registos menores que não reproduzem a vida, fazem parte dela.
O cinema é montagem, já não montagem do material cinematográfico, como dizia Orson Welles, mas sim montagem de toda a imagem em movimento, ou seja, de toda a imagem derivada da matriz cinematográfica. O cinema afirma a sua especificidade ao mesmo tempo que afirma o seu princípio de aglutinador não só de todas as artes, mas também de todas as formas de imitar/reproduzir a vida.
Que seja Brian De Palma a realizar Redacted é uma das maiores surpresas. Brian De Palma sempre foi acusado de copiar, no mau sentido do termo, os grandes mestres do cinema: sobretudo Hitchcock, mas também Howard Hawks de quem fez um remake de Scarface (1983) e até, pontualmente, Eisenstein, do qual surripiou uma famosa sequência do Couraçado Potemkine para a enxertar em Os Intocáveis (1987). Era de esperar que, ao abordar a guerra do Iraque, se «inspirasse» nos filmes sobre o Vietname. Em vez disso, gastou muito do seu tempo a fazer a ver vídeos no You Tube.
O método teve efeitos impressionantes no resultado. Esqueçam o «teatro» e a «ópera» de guerra de Apocalipse Now, ou o melodrama travestido de realismo de Platoon. A guerra do Iraque de Brian De Palma assemelha-se mais a um reality show com assassínios e violações a sério. Neste filme a violência não é cool como nos filmes de Tarantino, e, muito antes dele, nos filmes de Coppola e nos grandes clássicos de filmes de gangsters ou westerns. A violência é suja, sórdida, repugnante. Como, num registo narrativo mais tradicional, noutro filme que estreou este ano e tem passado despercebido: Coeurs perdues/Corações solitários.
A temática da guerra do Iraque é partilhada com outro filme estreado há pouco tempo, fraquíssimo – Peões em Jogo. Redacted, ao mesmo tempo que rompe com a estética de violência típica de Hollywood, rejeita um dos eixos característicos do cinema «liberal» norte-americano: o herói que descobre a verdade ou denuncia a injustiça «faz a diferença». O filme expõe outra moral: numa guerra, a verdade é a primeira vítima.

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