quarta-feira, abril 25, 2007

O meu 25 de Abril de 2007

O 25 de Abril deste ano recebi-o eu de pijama a meio da manhã, na cozinha, enquanto preparava e engolia um pequeno almoço preparado às três pancadas. Televisão ligada e os discursos da praxe ditos pelos deputados dos Verdes, do Bloco e do Partido Comunista. Saudosismo por um lado, críticas retóricas, demagógicas e previsíveis ao país e ao governo que temos e vamos tendo desde que Pinheiro de Azevedo chegou a primeiro-ministro. Em resumo, a esquerda pura e dura só aprecia o trabalho feito por governos desta república que nunca foram eleitos. Ou seja, o 2.º, 3.º, 4.º e 5.º governos provisórios.
Subiu depois Paulo Rangel à tribuna. Falou bem e pôs o dedo na ferida. O governo que temos é arrogante e autista, ao mesmo tempo que é chefiado por um homem mais do que evidentes problemas de carácter. Digo eu, mas também podia ter dito o orador. Ainda que Sócrates tenha “reagido” ao discurso do deputado do PSD desvalorizando-o e classificando-o como sendo de “bota abaixismo” (vocabulário típico de um aluno da Universidade Independente), a verdade é que as palavras de Paulo Rangel fizeram mossa. Bastava ver os sorrisos cínicos e desconfortáveis expelidos por muitos membros do governo enquanto Rangel falava – a começar em Sócrates e acabando no inefável Mário Lino – e que a câmara da SIC não quis nem pôde deixar escapar. Falou depois o presidente da República. Apesar de muito elogiado por Sócrates, o discurso de Cavaco Silva sobre a qualidade da democracia portuguesa – ou sobre a falta dela – reclamando a participação de gente mais bem preparada na vida pública, era uma farpa no lombo do governo, do seu chefe e do partido que o apoia e no seio dos quais pululam gente absolutamente impreparada (isto apesar da mesma desgraça minar também todos os outros partidos políticos portugueses com assento parlamentar).
Por volta das três da tarde, e enquanto passava a esfregona pela cozinha, lá estava, na mesma televisão, mas desta vez na RTP, o Dr. Soares a ser entrevistado por criancinhas alunas do ensino básico e por um rapaz muito simpático a quem a Ana Cláudia Vicente chamou um dia, com grande propriedade?, o Oprah português. Mário Soares, promovido a avó da nossa democracia, jurou que caso Portugal não tivesse tido Salazar ter-se-ia, no mínimo, transformado numa Suíça depois de terminada a Segunda Guerra Mundial. Soares nada disse sobre como passaríamos a ter Alpes ou que destino iria ser dado ao Oceano Atlântico. Calou-se sobre o número de cantões que Portugal passaria a ter, nada disse sobre a banca e os seguros, a Nestlé portuguesa, já para não falar nos relógios ou nos canivetes. Ainda assim acreditei. Soares, afinal, sempre foi para mim o exemplo do político e do homem probo. Mas confiei ainda mais no seu exercício de história virtual quando Soares garantiu que embora Portugal pudesse ter-se facilmente transformado numa Suíça naquilo que à sociedade e à economia diz respeito, assegurou ainda laconicamente que, em termos culturais, sempre lhe seríamos superiores (à Suíça, está bom de ver). Afinal, a pátria, a nossa, produziu grandes vultos da cultura mundial como o inesquecível e sempre actual António Sérgio.
Esfregada a cozinha fui até ao Chiado. Lá estavam a esquerda festiva e a esquerda próspera (quase sempre a mesma coisa). Um ou outro cravo vermelho. Dois pares de bandeiras daquela mesma cor. Mas gostei. De repente, Lisboa quase parecia uma cidade europeia normal com gente na rua portando-se capazmente. O pior estava para vir. Os poucos cafés que por ali existem encontravam-se incapazes de dar conta da procura. Rumei ao “Café do Chiado” (o que fica nas traseiras do Teatro S. Luís). Decoração capaz mas serviço péssimo, apesar do elevadíssimo número de empregados a servirem à mesa. Meia hora para se fazer chegar a três fregueses torrada e meia menos que morna, duas meias de leite quase frias servidas em chávenas da “Delta” e um chá frio que por acaso estava quase natural. Definitivamente, não estava na Europa.

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