quarta-feira, junho 21, 2006

Liberalismo e Relações Internacionais

Carlos Novais na Causa Liberal e Rui Albuquerque na Blasfémias envolveram-se em luta titânica sobre o que é ser liberal em relações internacionais (com a Patricia Lança a ajudar). A luta não deixa de ser saudável pela sua frescura nesta altura do ano.

Mas talvez seja interessante recordar que há duas grandes escolas "clássicas" que têm dominado o campo da teoria das Relações Internacionais nas últimas décadas (e não apenas uma). Há, claro, o Realismo e o Neo-Realismo (que neste caso não quer dizer comunismo literário, mas Realismo Sistémico ou Estrutural, pós-Kenneth Waltz). Mas há também a Escola Liberal e Neo-Liberal (e que neste caso não quer dizer anti-Estado, mas sim assente em teorias da organização, e focando a atenção no papel das ideias e das normas que regem a sociedade internacional, do direito internacional à OMC, e em que se destacam nomes como de Robert Keohane ou Joseph Nye). Em termos de publicações, a par da International Security, há a não menos prestigiada International Organization. Neste caso nem sequer se pode alegar, como tantos liberais de direita gostam de fazer, que são jornalistas ou políticos americanos ignorantes que usam por engano a etiqueta liberal. São centenas ou milhares de académicas com formação especializada em ciência e filosofia política que a escolhem. Enfim, tipos que leram Kant, Paz Perpétua e tal.

Se há uma corrente que até tem estado a jogar algo à defesa nos últimos anos é o neo-realismo e não o neo-liberalismo, que se tem mostrado particularmente dinâmico na sua reencarnação constructivista. Curiosamente, Alexander Wendt, um dos pontas-de-lança desta linha da frente intelectual, recentemente eleito pelos seus pares o autor do livro de RI mais influente da última década, publicou em 2003 um artigo (que deu grande brado) intitulado precisamente: Why a World State is Inevitable? Em suma, se o Carlos Novais e o Rui Albuquerque não acertaram na mouche - há por ali alguns argumentos histórica e teoricamente duvidosos de ambos os lados, penso eu de que - pelo menos têm um ideia de por onde anda o alvo.
Já agora (e sem querer envolver-me na discussão, claro) diria mesmo mais:
  1. Quem não acredita na possibilidade de cooperação ou na realidade do direito internacional não acredita na possibilidade de comércio internacional;
  2. O federalismo e a ideia da paz democrática são centrais na filosofia política liberal clássica;
  3. Um realista filosoficamente coerente seria a favor de um Estado absolutista e do protecionismo mercantilista.

4 Comments:

Blogger Fernando Martins disse...

E a bondade do realismo the Waltz a propósito da crise nuclear iraniana?

12:30 da manhã  
Blogger rui disse...

Inteiramente de acordo com o ponto 1;
Parcialmente de acordo com o ponto 2, dependendo do modelo de «federalismo»;
Completamente em desacordo com o ponto 3.
Ou seja: vai-me dar trabalho a responder. Lá mais para o fim-de-semana, depois do S. João.

P.S.: os autores americanos das relações internacionais são todos uns chatos insuportáveis. E socialistas. Mesmo (ou principalmente) os da chamada Escola Liberal. Até o Keohane, que começou por subalternizar o papel do Estado, acabou por se lhe render. Asim como assim, venha o Morgenthau.

1:29 da manhã  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Caro Rui, obrigado pelo comentário. Percebo que o atraia mais, realmente a filosofia política clássica, infelizmente tenho obrigação de estudar esses chatos :)
Fico aguardando eventual resposta (sem me querer envolver na discussão, claro :)
Até breve

12:01 da manhã  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Caro Fernando
Em primeiro lugar sou avesso a ortodoxias rígidas. Sou, para usar o conceito de Norberto Bobbio, não um (neo-)realista, mas um realista crítico : ou seja, tento o mais possível não confundir desejos e realidades. Portanto se achar que o Waltz, por quem tenho admiração intelectual, tem razão nalguma coisa digo.

No caso da proliferação nuclear deixei claro que sou a favor do tratado que a proibe, por questões de principio e por questões de prudência. Mas isso não me impede de ter de reconhecer que as armas nucleares não levaram a mais violência da parte da quem as tem, mas a menos. A explicação de Waltz é uma possível. Além disso, usei Waltz para ilustrar as contradições dos ditos "realistas" portugueses. Que são, esses sim, completamente incoerentes, profundamente ideológicos e primariamente pró-americanos, incapazes do distanciamento e do cálculo frio de interesses que esta corrente pressupõe.

Finalmente, as correntes de RI de que me sinto mais próxima, o neo-liberalismo e, sobretudo, o constructivismo, não têm problemas em incorparar uma leitura realista da situação: tudo depende de qual o paradigma dominante num determinado contexto. Ou como diz Wendt - com apenas um ligeiro exagero - a anarquia (do sistema internacional) é aquilo que os Estados fazem dela.

1:26 da tarde  

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