terça-feira, junho 20, 2006

Sobre as vacas que nos vêm ocupando e outros assuntos relacionados (mais ou menos bovinos)


Caro Bruno, não sei se disse que “os privados é que pagam a crise”, mas é verdade que essa ideia estava implícita no que escrevi. Julgo que é verdade que a generalidade das pessoas empregadas no sector privado estão mais vulneráveis na sua situação laboral do que a generalidade das pessoas empregadas no sector público. Essa diferença não se deve a nenhuma característica particularmente estranha do sector privado, mas, pelo contrário, ao excesso de protecção de que goza a generalidade dos funcionários públicos.

Quanto à questão de quem produz e de quem gasta, como sabes, temos – de há muito – uma clara divergência: eu julgo, de facto, que o sector público, financiado como é pela via fiscal e não pela venda de produtos e serviços no mercado, não é realmente um sector produtivo, mas sim, por natureza, um sector gastador de recursos de que teve de se apropriar coercivamente pela via fiscal. Como não sou anarquista, julgo que isto tem de acontecer nalguma medida. O que não acho razoável é a medida a que já chegámos (e cujo crescimento, apesar de todo o “rigor” mais recente, continua incontrolado).

Depois, tu pareces achar que o sector privado causa desemprego ou é responsável por desemprego por não se “reformar”, por não se “modernizar”, por não planear, etc. Não concordo. Não sei o que entendes por “planeamento” neste contexto, mas deixa-me que te diga que não conheço nenhum negócio (privado) que sobreviva um ano sem o planeamento comezinho que tenho o vício de exigir ao Estado: que gaste apenas os recursos disponíveis ou os que alguém lhe emprestou temporariamente. Mas isto deve ser de estar habituado ao trabalho numa pequena empresa onde se tenta planear o trabalho pelo menos a médio prazo e onde estamos sempre a ser confrontados com mudanças legislativas, nova regulamentação, novas directivas governamentais, que todos os anos nos obrigam a reformular estratégias e prioridades…!

Ideias brilhantes que os outros devem aplicar, todos temos, e os senhores do Terreiro do Paço também. Mas o que eu prefiro, ao contrário de ti, é que os senhores do Terreiro do Paço se preocupem menos em brilhar tanto com ideias salvadoras e cumpram a parte que realmente lhes compete, que é de funcionarem onerando o mínimo possível as empresas que têm os seus próprios projectos e nos quais também há muitas ideias brilhantes, mas que (e aqui falo do que conheço) não são testáveis porque não lhes sobram recursos para isso, acima da (quase) mera sobrevivência financeira. Mesmo assim, são muitas vezes essas ideias e capacidades de que tu julgas o sector privado tão deficitário que permitem a essas realidades empresariais contornar e superar momentaneamente quer a retracção do consumo quer o peso brutal da carga fiscal (coisas que um Estado “inchado” provoca).

Ou seja, se o sector privado não emprega mais gente e não paga melhor, isso deve-se a causas endógenas ou aos poderosíssimos constrangimentos exógenos de um Estado que chama a si uma parte cada vez maior dos recursos disponíveis criados (e que são finitos)?

1 Comments:

Blogger bruno cardoso reis disse...

Caro Luís, um belo texto com o qual concordo em vários aspectos.

Acho interessantes os exemplos concretos que dás. (Outros poderia dar eu, e talvez dê). Mas e a associação empresarial do teu sector o que diz desses ziguezagues governamentais? Isso não mostra que é importante o Estado e as empresas planearem bem e em conjunto, e não apenas para o curto prazo?

O problema continua ser que escreves como se fosse impossível ser a favor da reforma do sector público e da reforma do sector privado, como se se tivesse de optar entre controlo orçamental e visão estratégica (quando eu não concebo esta sem uma análise séria de custos e benefícios).

Sobretudo - é a minha vez - não dizes onde cortavas radicalmente esse Estado tão evidentemente gordo. E quais as consequências económicas desse corte radical se o problema económica estrutural que lhe está subjacente não melhora alguma coisa.

12:15 da manhã  

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