domingo, junho 18, 2006

Bestiário III - galinha poedeira


A primeira página do Público de sexta-feira passada trazia uma notícia perturbadora: «Portugal é o país europeu com mais salmonelas nas galinhas poedeiras». Desde o Verão passado que somos ameaçados com a praga do H5n1 descendo dos céus sobre as nossas cabeças nas asas das aves migratórias. Agora o perigo espreita dos ovos postos pelas tão lusitanas galinhas poedeiras. A sabedoria centenária que nos adverte para colocar os ovos em vários cestos torna-se inválida, pois o problema está no ovo e não no cesto. Quanto tempo passará até nascerem outras sentenças populares: «não metas no mesmo cesto ovos da mesma galinha poedeira» ou «põe os ovos todos num recipiente com água para ver se vão ao fundo ou flutuam?» A galinha sempre foi, na cultura portuguesa, um símbolo de sorte. Daí ser caso raro «tirar o ovo do cuzinho da galinha» ou encontrar a galinha dos ovos de ouro, verdadeiro desígnio nacional que nos levou à Índia, ao Brasil, a África e, por fim, nos integrou na União Europeia. Se um Shakespeare escrevesse a tragi-comédia de Portugal, talvez saísse com esta tirada no clímax da peça: «também tu, galinha poedeira?»

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