segunda-feira, abril 17, 2006

Vital Moreira, a Igreja Católica e o Massacre de 1506

No melhor pano cai a nódoa. Uma pessoa que eu respeito, Vital Moreira, resolveu considerar que progrom de Lisboa de 1506 foi acicatado pela Igreja Católica. Gostava de saber exactamente no que é que se baseia para dizer isto. O papa apelou ao massacre? Algum bispo o fez? Afinal, os cristão-novos eram tecnicamente... cristãos. (Embora em 1497 tivesse havido bispos e padres que se recusaram a baptizar os judeus forçados a converter-se, por não poderem aceitar doutrinalmente tal conversão como válida).

Eu estou habituado às posições do papa (com algum sentido), de um ou outro bispo (com menos), serem logo qualificadas de posições da Igreja Católica. E quaisquer posições, mesmo que solidamente baseadas na teologia católica, de padres ou leigos serem vistas como não representativas.
É claro que o facto do Catolicismo se fazer pela união da diversidade, e de ser ao mesmo tempo muito variado mas também hierarquizado tem este preço. É claro que um católico erasmiano como eu, não pode estar à espera que posições católicas mais ou menos minoritárias e relativamente marginalizadas (mesmo que não formalmente excluídas) sejam aceites como as posições católicas (mesmo que seja com elas que se identifica).
Mas repito, exactamente no que é que Vital Moreira se baseia para fazer esta acusação? No facto de uns quantos frades e de uma parte do bom povo de Lisboa, que era realmente católicos, terem desencadeado o massacre contra os cristão-novos que aos olhos da Igreja nem eram judeus? As devidas autoridades religiosas católicas não apelaram ao massacre. O rei, que era católico, reprimiu ferozmente o sucedido.

Mas talvez ainda mais importante para as minhas convicções seja o facto de Vital Moreira falar da ocultação do acontecimento pela historiografia oficial. De novo, não sei muito bem a que se refere. O episódio é referido nas crónicas da época como um exercício exemplar do poder do rei. E não vejo o que seja a historiografia oficial na actualidade.

5 Comments:

Blogger sabine disse...

Mas quem tutelava a inquisição? Os padres da igreja!
Vital Moreira está a tentar branquear o papel dos portugueses nesta estoria.
De facto ele até tem razao: houve o papel da igreja catolica que era quem fazia a inquisição. Mas o Bruno tambem tem razao: houve o papel do rei. Ambos só contam metade da história!

5:03 da tarde  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Cara Sabine

Concordo com um ponto central do que diz: porque e que se fala sempre nos portugueses que descobriram o caminho maritimo para a India (e nao os catolicos?), mas nestes casos menos gloriosos, nao se fala de portugueses ou lisboetas, mas sim de catolicos?

Mas olhe que eu refiro os dois lados da historia. Refiro que e evidente que houve catolicos envolvidos, nomeadamente alguns frades, mas fizeram-no sem qualquer base doutrinal ou institucional. Neste caso nao faz sentido dizer que a Igreja Catolica como instituicao esteve envolvida.

A Inquisicao nao existia nesta altura. Foi criada pelo sucessor de D. Manuel I, D. Joao III, apos muitos esforcos, pois
enfrentou bastantes reservas de Roma e de varios bispos. E evidente que, seja como for, a sua terrivel accao vinculou a Igreja. E sobre isso os catolicos nao tem mais do que seguir o exemplo do papa e condena-la como flagrante perversao da fe.

Quanto aos historiadores, esses tem uma tarefa um pouco mais complicada. Pois se houve muitos catolicos a participar nela, tambem houve outros que se lhe opuseram: poucos (era um exercicio arriscado) mas bons. Provavelmente o pregador mais popular e influente do seculo XVII, o padre Antonio Vieira, foi seu inimigo acerrimo, e consegui a determinada altura o apoio do papa do rei para que fechasse as portas. E se foram catolicos que criaram e geriram a Inquisicao Portuguesa. Foram outros catolicos que acabaram com ela.

8:02 da tarde  
Blogger Joana disse...

Desculpe uma pergunta indiscreta Bruno, por acaso nao tens um irmao chamado Ricardo que vive no Porto?

4:12 da manhã  
Anonymous GH disse...

O incidente do pogrom foi despoletado por dois frades dominicanos. Mas será que por causa disso devemos atribuir a culpa desse massacre à igreja católica? Creio que não. Isso seria uma atitude de "anti-catolicismo primário".

Alguns desses anti-católicos primários vão tentar aproveitar a evocação deste massacre para voltar a dizer mal da Igreja.

E eu não sou católico!

11:36 da manhã  
Blogger sabine disse...

Caro Bruno: obrigado pela sua resposta.
Gosto muito de História mas tenho a sensação que quer você quer o vital moreira para defenderem as suas teses escreveram apenas a meia-verdade respectiva.
Sou adepta do secularismo e da laicidade da escola. Se isso faz de mim uma "anti-católica primária", paciência.

7:24 da tarde  

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