terça-feira, abril 18, 2006

Gnósticos e Sábato


Há muitos anos que a Páscoa televisiva se tinha tornado para mim sinónimo de dejà vu. Este ano vi a estreia do documentário da National Geographic sobre O Evangelho Segundo Judas. Logo, assinalo o acontecimento. Não me parece que o livro tenha grandes implicações teológicas ou seja sentido como uma ameaça à ortodoxia pela Igreja Católica, as outras igrejas cristãs e as religiões que reconhecem Cristo como profeta – a muçulmana, por exemplo. Tenho mais dúvidas e curiosidade em relação aos movimentos religiosos de nulo ou fraco enquadramento institucional geralmente designados por New Age. O impacto na produção artística, sobretudo literária, poderá ser significativo. A ideia não é nova. Lembro-me de ter visto, há uns anos, nos escaparates das livrarias, um romance sobre Judas. E esse era o tema de um projecto inacabado de Orson Welles.
O novo evangelho apócrifo insere-se na rica tradição gnóstica. As raízes do gnosticismo não se limitam ao cristianismo, estendendo-se ao judaísmo, neoplatonismo, hermetismo. O maniqueísmo foi um fruto tardio desta corrente heterodoxa e transversal a diversas religiões. A ideia base é que o mundo, a natureza, não foram criados pelo verdadeiro Deus, mas por um deus menor e decaído. Só um conhecimento interior, esotérico, permitiria romper as aparências e descortinar a via autêntica para Deus. Desde o século XVIII, o gnosticismo tem alimentado a literatura crítica da Razão e do Realismo. Embora Voltaire coloque na boca de uma personagem uma réplica gnóstica a Cândido - «acho que Deus abandonou este globo (…) a um ser maléfico», David Hume atacou violentamente esta corrente religiosa. O que não a impediu de inspirar grandes poemas de Blake ou o Moby Dick de Melville. No século XX, a influência gnóstica fez-se sentir em Herman Hess, Lawrence Durrell ou nos romances de ficção científica de Philip K. Dick. Jack Kerouac e Allen Ginsberg foram iniciados no gnosticismo pelo seu professor Raymond Weaver.
Carl Jung chamou aos gnósticos «psicólogos». Eric Voeglin identificou a pulsão gnóstica nas ideologias totalitárias. Harold Bloom encontrou na corrente a prefiguração de uma teoria literária: «Gnosticism was the inaugural and most powerful of Deconstructions because it undid all genealogies, scrambled all hierarchies, allegorized every microcosm/macrocosm relation, and rejected every representation of divinitiy as non-referential».
Ernesto Sábato é um grande escritor argentino que tem usado o gnosticismo na sua obra de ficção. Este autor-personagem, nascido em 1911 e doutorado em Física, trocou, após a Segunda Guerra Mundial e o escândalo do cogumelo atómico, o mundo das «coisas puras» pelo «mundo impuro das coisas humanas», a ciência pela literatura. Desde 1948 publicou apenas três romances: o relato de um homicida (O Túnel); a dissecação de um suicídio (Sobre Heróis e Tumbas) e digressões acerca do assassinato de um jovem no período da ditadura militar argentina (Abadon, o Exterminador). Da epígrafe deste último romance, tirada do Apocalipse Segundo São João: «E tinham por rei o Anjo do Abismo, cujo nome em hebreu é Abaddón, que significa O Exterminador.» Ecco.
ROBINSON, James M. (General Editor), The Nag Hammadi Library in English, s.l. HarperSanFrancisco, s.d.
SÁBATO, Ernesto, Abadon o Exterminador, Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1981

2 Comments:

Blogger bruno cardoso reis disse...

Um texto bem interessante.

Nao sei, no entanto, ate que ponto se deva misturar livremente neoplatonismo, tradicoes hermeticas, correntes esotericas e iniciaticas em varias religioes (que sao muita antigas e importantes em certos cultos na Grecia e no Egipto, mas estao presentes em muitas outras correntes) e gnosticismo cristao, cabalismo judaico ou maniqueismo persa. Fazem todos parte da mesma tendencia e provavelmente, ou ate provadamente, exerceram influencias mutuas? Sem duvida, mas nao e tudo o mesmo.

Finalmente, discordo quanto a falta de novidade por via deste evangelho. Claro que e tudo relativo, nao e exactamente o Codigo Da Vinci. Mas no minimo permite perceber que Judas tinha uma importancia central no gnosticismo cristao. O que provavelmente tambem ajuda a perceber a sua exclusao da ortodoxia.

8:17 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Eu não misturo religiões. O que sei e o que tenho lido, principalmente nos evangelhos apócrifos de Nag Hammadi, citados no final do post, é que o gnosticismo não é específico do cristianismo. É antes um sincretismo que vai beber a diversas fontes e acaba por influenciar religiões não-cristãs como o maniqueísmo. E, na época contemporânea, é apropriado por movimentos artísticos contestatários da ordem vigentes.
Quanto à falta de novidade do evangelho de Judas, penso que não levará a grandes alterações teológicas nas Igrejas cristãs estabelecidas. Mas é, obviamente, uma fonte importante para a História religiosa da antiguidade. E até me interrogo se não permitirá reforçar certas tendências gnósticas da literatura contemporâena.

9:48 da manhã  

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