quarta-feira, janeiro 18, 2006

Os Temperados

Chamo ‘temperados’ aos que se atemperam às circunstâncias do tempo e do meio. São os piores, porque são mistos – têm três doses da bílis azeda dos três partidos. São a mentira convencional – a máscara. Déspotas para zelarem a liberdade, livres para glorificarem o despotismo.”

Camilo Castelo Branco, ‘Proémio’. In Perfil do Marquês de Pombal: Porto, Lello & Irmão, 1982 (1ª Ed. 1882), p.3.


Como se lê em epígrafe, Camilo não poderia ter em pior conta os ‘temperados’, esses que não tomavam partido certo por regeneradores, progressistas ou republicanos. Ou se alheavam, ou se acomodavam, ou eram imprevisíveis, os ‘mistos’. Hoje chamamos-lhes centrão. Fosse o centrão mais que uma abstracção e seria seguramente a família política mais desconsiderada no interior dos regimes democráticos. Mas não é. É apenas o patronímico de quem por qualquer motivo está órfão de ideologia e partido. Enfio o barrete do centrão, sem mais delongas, o que não significa que me alheie da ciência, do debate, ou da acção política. Acredito que o melhor regime possível é uma democracia com plena separação de poderes. Sou pela república, que o exercício da mais alta magistratura do meu país não o desejo condicionado por privilégios de sangue. Prefiro reformas a revoluções. O anarquismo e o libertarismo assustam-me ou fazem-me rir, à vez, e às vezes ao mesmo tempo. Ao fascismo e ao comunismo, bem como a qualquer outra concepção absoluta de organização da sociedade humana, oponho-me, e não lhes subestimo as mutações. Aprecio os legados do liberalismo, da democracia cristã, da social-democracia e do socialismo democrático, mas não me identifico profunda ou totalmente com nenhuma destas tradições. Tenho por positivo o rotativismo que caracteriza a governação em regimes demoliberais - a imprevisibilidade do voto é instrumento de que esta cidadã não abdica para se ir atemperando às circunstâncias do tempo e do meio.

2 Comments:

Blogger Luís Aguiar Santos disse...

Os três partidos a que se refere o Camilo seriam esses?

12:49 da tarde  
Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

Penso que sim, Luís. Ou melhor, presumo, porque no 'Proémio'de à obra Camilo nunca o diz literalmente. Logo no início do mesmo, ele refere-se a "absolutistas" e "republicanos"; mais à frente, critica todas as "facções e fracções" da "Democracia", em particular os "talentosos caudilhos do centenário", por celebrarem o "déspota" Pombal.
Tendo a Comissão do Centenário sido constituída a partir de membros dos dois partidos de poder (Pares, Deputados, funcionários da Câmara de Lisboa, etc), e aproveitada para por republicanos para propaganda anti-clerical, assim o concluí.Mas não estou 100% segura.

1:30 da tarde  

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