sexta-feira, abril 11, 2008

Talento sem filme

Youth without youth, de Francis Ford Coppola, é uma banhada. Eu, que até já fui acusado de ser demasiado indulgente com alguns filmes, não consigo descrever a minha reacção de outro modo. O plot é uma variação estapafúrdia, do mais gasto dos plots: «boy meets girl». Neste caso, um velho orientalista apanhado por um raio que o rejuvenesce trinta anos encontra a reencarnação de um antigo amor da juventude. Que é também a reencarnação de uma mulher da antiguidade remota, que consegue falar imensas línguas antigas conhecidas e desconhecidas. Esta variação do plot só se torna nítida ao fim de uma hora. Em toda a primeira parte do filme a história de amor é secundária e o espectador é confrontado com os dilemas existenciais de um investigador, que além de ser rejuvenescido por acção de um raio caído dos céus, em 1938, ganhou superpoderes e por isso é disputados por norte-americanos e nazis. A segunda guerra mundial acaba e seria natural que a disputa continuasse por intermédio de norte-americanos e soviéticos. A meio do filme acaba a história de espionagem e começa outra de amor e demanda espiritual.
Pior que as incongruências do guião é a deriva estilística do realizador. Coppola imita Coppola, imita o Carol Reed de O Terceiro Homem (nas cenas nocturnas de Genebra), parece que imita Oliveira. O espantoso é que fiquei com a impressão de que alguns diálogos palavrosos das personagens seriam mais toleráveis numa película do quase centenário realizador português. Em Youth without youth aparecem todos os géneros: ficção científica, fantástico, melodrama, histórico. Só não aparece a inspiração do realizador que nos deu grandes filmes como todos os Padrinhos, o Apocalipse Now, e pequenas obras-primas como Do Fundo do Coração e Rumble Fish. De todos os seus filmes anteriores, Drácula é o mais parecido com este, sendo muito mais eficaz. O filme adapta uma história de Mircea Eliade, de quem li, desde a minha adolescência, várias obras como O Mito do Eterno Retorno. Sempre tive curiosidade em ler as incursões do orientalista na ficção, curiosidade que Coppola conseguiu extinguir. Um filme a perder.

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4 Comments:

Blogger CLeone disse...

Rumble Fish é realmente muito bom, quanto a mim ao nível dos Padrinhos.

4:16 da tarde  
Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

Ó. Eu que sou uma totó pró-Coppola (não vi o "Capitain EO", e do que vi gostei de tudo menos do "Jack", mas ninguém gostou do "Jack", caneco) lamento...

11:51 da tarde  
Blogger Victor Alves disse...

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12:52 da manhã  
Blogger João Miguel Almeida disse...

o «Rumble Fish» é dos meus preferidos. E há outros filmes que ficaram aquém dos objectivos de Coppola, mas não são nada de desprezar - o «Cotton Club», por exemplo.

5:23 da tarde  

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