terça-feira, agosto 29, 2006

Revisionismo ou Revisão

O Daniel Melo, o João Almeida - e mesmo se percebi bem o Carlos Leone - dizem-se a favor da revisão na história, mas reservam revisionismo para as revisões politicamente motivadas. Eu não subscrevo essa distinção. Uso o termo no sentido consagrado na tradição anglo-saxónica - de uma determinada corrente que vem questionar uma tese que se tinha tornado ortodoxa - não por teimosia ou anglofilia, mas pelo que ele representa a valorização do debate e de normalização do constante questionamento.
Parece-me que rever a definição de revisionismo político, politizando-a, como defendem, ou não adianta nada, ou terá consequências negativas. Pois das duas uma, ou as implicações políticas que se procura tirar da revisão do passado são implícitas, e portanto a caça ao revisionismo só resultará numa suspeição generalizada e no inevitável constrangimento do sempre bem vindo questionar das teses dominantes. Ou então essas implicações políticas são explícitas e portanto o termo não vem acrescentar nada ao que já é evidente. Mais, quer num caso quer no outro, o que importará sempre é responder aos argumentos que forem avançados em defesa de uma determinada leitura do passado. Eu já o fiz, por exemplo, numa perspectiva de esquerda, em relação a certas interpretações de direita da descolonização ou do 25 de Abril que me pareceram bem frágeis, seja historicamente, seja politicamente.
O debate explicitamente político do passado – com mais ou menos qualidade – é perfeitamente legítimo. Desde que não seja feito nas universidades ou nos livros de história. Pois considero que para preservar a sua especificidade como disciplina académica a história não deve ser apologética: ou seja, não deve ser determinada pelo desejo de promover fins políticos, económicos, sociais, religiosos ou ateus. Mas sim pelo vontade de compreender rigorosamente o passado. Todos nós teremos as nossas simpatias ou preconceitos à partida quando iniciamos um estudo histórico, mas eles devem ser sacrificados à procura do rigor e da qualidade da compreensão do passado na sua complexidade.
Errar é humano e por isso rever é necessário. Mas a revisão faria algum sentido se aceitássemos que todos estávamos sempre a ser movidos por agendas políticas? As distorções e omissões que resultam de uma manipulação propagandística do passado são simplesmente má história, propaganda, não vejo que seja preciso dar-lhe outro nome. Há, no entanto, interpretações políticas do passado, que sendo questionáveis por quem não subscreve determinados princípios, são honestas e assentam num esforço de leitura rigorosa do que realmente aconteceu.

6 Comments:

Blogger Luís Aguiar Santos disse...

1. "O debate explicitamente político do passado – com mais ou menos qualidade – é perfeitamente legítimo. Desde que não seja feito nas universidades ou nos livros de história."

2. "Há, no entanto, interpretações políticas do passado, que sendo questionáveis por quem não subscreve determinados princípios, são honestas e assentam num esforço de leitura rigorosa do que realmente aconteceu."

Não há aqui uma contradição?

6:32 da tarde  
Anonymous Arnaldo Matos disse...

Fôgo sobre o revisionismo! A Revolução há de avançar a todo o vapor!

7:52 da tarde  
Anonymous M. Bakunine disse...

E até o Rumsfeld se arma em revisionista ao sugerir que aqueles que hoje são contra a guerra no Iraque são os mesmos que, nos anos 30, tentavam acalmar a Alemanha Nazi:

http://www.nytimes.com/2006/08/30/washington/30rumsfeld.html?th&emc=th

8:22 da tarde  
Blogger Daniel Melo disse...

O novo post do Bruno Cardoso Reis não adianta nada ao que já debateramos, apenas explicita o seu entendimento do termo revisionismo. Tudo bem. Mas será só uma questão de semântica?
É que, qt. ao resto que preconiza, debate de ideias sério, rigoroso e argumentado, mesmo no plano político, eu não tenho nada contra. Como acho que já devia ter dado para entender do muito que tenho escrito, debatido e polemizado.
Eu apenas critiquei a instrumentalização para efeitos político-ideológicos, e dei casos concretos, passagens de textos, relações entre teses históricas e justificações políticas de agenda do presente, etc.. Relativamente aos exemplos concretos que levanto, chapéu.
Dou novo exemplo, a aditar ao do neoliberalismo. Vejamos a instrumentalização pelo Estado Novo: a «gesta heróica dum povo de marinheiros e navegantes», e rebéubéubéu; quer dizer, aquilo era tudo para justificar a manutenção do colonialismo e a ideologia oficial ultranacionalista, mai nada. Lá pelo meio lá se ia fazendo alguma história, evidentemente, sobretudo com uma forte componente técnica, levantamento de fontes primárias, etc.. Ficava-se era pelos «Descobrimentos», o resto era paisagem... Não sei me faço entender melhor agora.
Por fim, eu não ponho em causa a honestidade de ninguém, e sou contra a cassete da «superioridade moral».
Suspeito que o essencial deste debate que temos estabelecido lealmente ainda vá dar que falar. Lá mais para diante... O que é salutar, diga-se de passagem.

1:24 da manhã  
Blogger Pedro Picoito disse...

O post é muito bom, mas um pouco confuso. Não é possível "sacrificar os nossos preconceitos" para fazer história porque os preconceitos (a que também poderíamos chamar convicções e já não soaria mal...) fazem parte da nossa visão do mundo, e portanto do nosso processo intelectual. Tal como perguntei ao João o que é ideológico, também te pergunto o que consideras político. Tudo o que fazemos e pensamos é em certa medida político (nem preciso de citar Marx ou Foucault). Deriva de um conjunto de valores em nome quais tentamos viver e têm, portanto, uma tradução prática. Não é a suposta neutralidade de convicções do historiador que evita a arbitrariedade das suas interpretações, mas as notinhas de rodapé. Quem diz que D. João I é um defensor da classe operária tem que indicar as passagens de Fernão Lopes que sustentam essa interpretação. E assim por diante.

1:17 da tarde  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Caro Luís
Não há contradição entre achar que pode haver interpretações explicitamente políticas do passado mais ou menos bem fundamentadas e dizer que elas não devem ter lugar nas universidades ou textos académicos. A razão está no poste: preservar a especificidade da história como disciplina. Por exemplo eu tenho toda a legitimidade para tirar determinadas implicações políticas da descolonização ou do 25 de Abril, mas acho que isso estaria deslocado num artigo académico sobre o assunto.

Caro Pedro
É perfeitamente possível questionar os nossos preconceitos, se não fosse assim nunca aprendíamos nada! Quem faz história com seriedade está constantemente a confrontar-se com documentos chatos, acontecimentos ignorados, negociações esquecidas ou escondidas que lhe estragam as suas interpretações mais brilhantes e as suas frase mais bombásticas. Em resposta haverá quem faça fretes aos seus preconceitos e esconda as inconveniências do passado debaixo do tapete, isso dará como resultado uma história menos rigorosa e menos interessante.

Caro Daniel
Eu tentei anteriormente focar o que considerei o essencial do conteúdo teses em debate. Mas talvez tenha falhado. Não sei se ainda insistirei uma última vez sobre Salazar e o fascismo... Mas também eu apreciei este debate.

4:30 da tarde  

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