terça-feira, agosto 29, 2006

Bestiário IV - Vacas

Cara vaca Cornélia,

Agora que as outras vacas, as da parada, estão a desaparecer de Lisboa e aguardam por quem em compre ao melhor preço, venho por este meio manifestar-lhe publicamente a minha estima. Confesso que, inicialmente, a considerei vítima de uma injustiça por não ter sido incluída na cowparade. É verdade que é para mim uma vaga memória de infância, mas suficientemente forte para ser sinónimo do mais alto exemplo de uma vaca. Fiz uma pesquisa pela Internet e as minhas impressões saíram reforçadas. Em 1977, juntamente com «Gabriela», revolucionou a televisão portuguesa. Mas devemos lembrar que a «Gabriela» era uma telenovela brasileira e a Cornélia era inteiramente portuguesa, a nossa vaca. Para alguns estudiosos, a Cornélia «inaugurou o país televisivo», abriu as portas ao divertimento popular, deu de mamar a artistas já consagrados (como Raul Solnado, na foto) e apadrinhou outros emergentes.
A vaca Cornélia era sólida, simpática, bem-humorada, inteligente, simples. Já não há vacas assim. Agora o povo embasbaca-se com a vaca Metromorfose, que assenta as patas sobre os carris, as articulações bem apertadas por porcas de ferro também presentes nas glândulas mamárias, o tronco pintado com um vermelho ferrugento, a cabeça protegida por uma viseira e inclinada, como quem vai marrar. Ou com a híbrida vaca-sapo, pontilhada de ligações à Internet. As vacas «freaks» abundam. É ver «uma manada de vaca», silhueta de vaca recortada por chocalhos presos por fios de nylon dentro de uma estrutura metálica com paredes de plástico, para protegê-la do vento. Ou a Acowário, pintada com peixes e com um buraco rectangular no interior do corpo onde se podem ver conchas. Ao exibicionismo sem substância, junta-se por vezes, a arrogância. Era o caso da vaca que, no Saldanha, se erguia sobre as patas traseiras do hemisfério Norte de um globo terrestre. Com uma das patas dianteiras apontava para Ocidente, para a América, do outro lado do Atlântico. Debaixo da outra pata dobrada, o mapa-mundo. O úbere soberbamente inchado e cor-de-rosa. As vestes pintada a vermelho e ouro. A túnica azul, verde e dourada. Quando sentimentais, as vacas da cowparade davam a impressão de superficialidade, como a vaca enamorada, coberta de corações e flores das cores mais variadas.
Para mim a vaca Cornélia continuará associada aos sabores puros da infância, como o leite de chocolate da UCAL, que ainda não tinha anúncios escanifobéticos. As vacas de Lisboa, neste Verão de 2006, lembram-me combinações inacreditáveis de sumos como laranja/maracujá, manga/acerola, laranja/cenoura/manga, manga/coco/baunilha. De certo modo, congratulo-me que a vaca Cornélia não tenha estado temporariamente exposta nem seja levada a leilão. E faço votos que seja erguida uma estátua permanente à vaca Cornélia, como ícone da cultura popular do século XX e marco histórico da televisão portuguesa. Em tempos de memória curta e frágil, celebrar a vaca Cornélia é preciso.

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