sexta-feira, agosto 04, 2006

O revisionismo histórico a estragar a festa

Chamaram-me a atenção para este texto do Carlos Leone no sempre interessante Esplanar. Parece que eu, o Rui Ramos, e o Luciano Amaral – historiadores que admiro e por quem tenho apreço pessoal, e colunistas com quem frequentemente discordo – fazemos parte de uma frente revisionista com uma agenda ideológica unificada. O que é para mim, e estou certo de que também para eles, uma grande novidade.

A história não é para fazer fretes ideológicos? Concordo inteiramente. Infelizmente neste crítica actual ao revisionismo histórico que anda pela imprensa e pelos blogues, o que os críticos parecem realmente querer é que se deixe em paz a versão completamente ideológica que os intelectuais da Oposição a Salazar (ou a Franco), por razões compreensíveis, escreveram. Não vejo que nenhum historiador actual, com simpatias de direita ou de esquerda – e até sobretudo de esquerda, porque é quando temos afinidades ideológicas com uma determinada versão da história que se faz o verdadeiro teste – deva aceitar isso.

Mas se o Carlos Leone tiver documentos ou argumentos que ajudem a desmontar esses revisionismos em relação à nossa Primeira República ou à Segunda República Espanhola, ou sobre a posição do Vaticano face ao Nazismo, estarei interessado em lê-los. Para já deixo-lhe a ele e aos demais anti-revisionistas um par de perguntas: Como é que definem fascismo? O Salazarismo é fascismo porquê? Se forem capazes de responder de forma indiscutível a estas duas perguntas terão realmente mostrado a inutilidade de um debate e de revisões contínuas destes temas em centenas de artigos e livros de historiadores e politólogos durante as últimas décadas.

Carlos Leone resolve, é verdade, apontar aos historiadores da Primeira República e do Salazarismo um problema profundo, supostamente ignorado por eles: o da crise do liberalismo. Mas aqui tenho de supor que, paradoxalmente, é Carlos Leone que afinal se quer dedicar ao revisionismo. Porque a opinião prevalecente é que esse tem sido precisamente um dos temas principais das análises históricas nos últimos anos sobre a crise da Monarquia Constitucional, a Primeira República, e a emergência do Estado Novo. Aliás, (fornecendo uma pista um bocado óbvia a este respeito) uma das obras mais recentes do «ignorante» Rui Ramos até tem por título: João Franco e o Fracasso do Reformismo Liberal.
Divulgar num blogue de alguns factos e documentos sobre a posição oficial do Vaticano e a atitude de certos católicos face ao nazismo não é, aliás, propriamente uma actividade de historiador. Essa fica para outros textos, em que me interessa perceber e explicar a situação no seu conjunto, sem entrar numa lógica apologética (de advogado de defesa ou acusação). Limito-me a fornecer aqui elementos ocultados e não explicados por livros que propagandeiam uma versão da acção do catolicismo durante a Segunda Guerra que me parece, ou seriamente amputada, ou mesmo deliberadamente distorcida por segundas intenções. Não vejo que mal isso possa ter. Não vejo porque os historiadores não poderiam escrever colunas ou postes em que dão a sua opinião sobre debates de actualidade, mais ou menos informados pela sua formação histórica. Outra coisa são textos académicos, e outra ainda textos de divulgação histórica. Quero crer que o Carlos Leone não ignora esta distinção básica. Mas às vezes é preciso sublinhar o óbvio.

11 Comments:

Blogger CLeone disse...

Caro Bruno Cardoso Reis,
Sem prejuízo de escrever mais no Esplanar sobre este seu post, tenho de fazer umas observações sobre ele:
1) eu não escrevi que Rui Ramos é «ignorante».
2) não disse que a historiografia ignora o tema do liberalismo, disse que o evita mencionar ou o esquece, o que pressupõe conhecimento;
3) claro que aceito a distinção entre investigação e divulgação, e entre ambas e comentário. Mas quando os dois úlimos géneros são ostensivamente agressivos com o fundamento da «investigação», e quando essa agressividade é, ela sim, insultuosa e pretensamente superior aos outros, é uma vergonha (ou falta dela). É disso que se trata como um artigo recente do VPV no último Domingo bem exemplifica ( ainda bem que há quem responda).
Por mim, não sou sensível à «memória» como solução para disputas históricas, note. Mais a mais para as que estão resolvidas. Do mesmo modo, clamar pela verdade silenciada contra a censura do politicamente correcto não me convence.
Mas como me pede respostas a duas perguntas vou escrever então no Esplanar (e nelas retornarei ao caso do Vaticano). Evitarei citar-me e por isso mesmo termino observando que quer no post a que se refere quer em muitos outros sítios, tenho publicado argumentos documentados sobre estas discussões; não precisa de os conhecer ou sequer querer conhecer, mas existem e em todos eles não tenho respostas indiscutíveis, nem pretendo mostrar a inutilidade do debate. Apenas tento evitar o tom de superioridade moral e intelectual tão comum aos exercícios de revisionismo de Direita e de Esquerda, como hoje o do «democrata» Vitor Dias no Público(uso o termo revisionismo pela conotação que tem, não pela prática de rever, necessárias ns ciências em geral).
Obrigado pelo convite,
Até breve.

6:23 da tarde  
Blogger Daniel Melo disse...

"Para já deixo-lhe a ele e aos demais anti-revisionistas um par de perguntas: Como é que definem fascismo? O Salazarismo é fascismo porquê? Se forem capazes de responder de forma indiscutível a estas duas perguntas terão realmente mostrado a inutilidade de um debate e de revisões contínuas destes temas em centenas de artigos e livros de historiadores e politólogos durante as últimas décadas."
Bom, para começar, esta passagem está completamente armadilhada, o que não é saudável para o debate: o facto de, hipoteticamente, não se conseguir responder "de forma indiscutível" a essas "duas perguntas" não significa que se aceite tudo, incluindo os últimos textos de Luciano Amaral e VPV pelos quais o Bruno passa sem nada dizer, como se tudo fosse remível a "opinião".
Quanto ao contexto fascista dos anos 20-30, é ver o texto do João Miguel Almeida, é tudo uma questão de ângulo de focagem, e não de taxinomia, não estamos a falar de borboletas, atenção. Mais para trás, sugiro, para começar, uma leitura instrutiva de Manuel Lucena, esse mesmo. Dispenso-me de referir a obra, por razões óbvias.
Tb. estamos a publicar uns txs. de apoio no blogue do Mov.º Não Apaguem a Memória, só para relembrar algumas coisas, pode ser que ajude. Sobre o Tarrafal e outros assuntos assim herméticos, não sei se me faço entender.
É caso para perguntar, qual é o assunto mesmo? Há assunto ou é só para bater o pé?

1:51 da manhã  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Caros Daniel e Cleone,

Sobre a natureza do Estado Novo já escrevi uns comentários bem citados pelo Daniel e não creio que esta época em que metade dos comentadores estão se férias, seja a mais adequada ao debate. Mas posso voltar ao tema se for mesmo necessário.
Quanto ao Carlos Leone, que eu costumo ler no «Esplanar», não li (ainda) os seus textos sobre a «crise do liberalismo», mas creio que lhe está a escapar que, para Rui Ramos, a alternativa não é entre liberalismo, fascismo e comunismo. Para este historiador, seguindo aliás Vasco Pulido Valente, o republicanismo já é um regime revolucionário e anti-liberal. O conceito de «liberalismo» é tão discutível e controverso como o de «fascismo».

10:37 da manhã  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Parece que Carlos Leone também não em conta que a crise do liberalismo remonta ao século XIX e expressa-se, por exemplo, no pensamento de Oliveira Martins defendendo um modelo «cesarista» que leve a uma modernização autoritária de Portugal. Este projecto de modernização autoritária tem ecos num sector do Estado Novo que tem em Ferreira Dias um dos seus arautos.
Salazar «tolera» uma modernização que industrialize mantendo uma agricultura arcaica que continua a ocupar a maior parte da população.

10:57 da manhã  
Blogger CLeone disse...

Caro João Miguel Almeida,
Só posso concluir que não leu mesmo nada do que eu escrevi, nem no blog nem em outro locais onde as coisas se trabalham com outra dimensão. Mas se só o quiser fazer quando voltarem outros comentadores, é consigo. Só duas pistas: quanto a mim a crise do liberalismo em Portugal é anterior ao século XVIII, pois começa com o liberalismo que Portugal nunca chegou a conhecer; e isto diz o bastante sobre o quanto de controverso eu vejo no nosso liberalismo. E mais não escrevo, por já ter escrito.

9:30 da manhã  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Caro Cleone,

Assim que tiver tempo, hei-de ler os seus ensaios sobre a «crise do liberalismo» e espero que essa leitura permita um debate interessante. Mas li o seu post acerca da natureza do Estado Novo e penso que ver este regime apenas como um fenómeno reaccionário, o produto de uma anti-modernidade, é redutor. Sublinho redutor, não errado. Fernando Rosas identifica cinco filões ideológicos no Estado Novo: o integralismo lusitano, o catolicismo social, a «direita das realizações» - corporizada nos célebres «engenheiros», o republicanismo conservador e o nacional-sindicalismo.
É claro que Salazar, sendo o fiel da balança destas tendências, apoia-se nos sectores mais conservadores. É por isso que admite electrificar e industrializar, mas não modernizar a agricultura destruindo a base social do regime.
Já agora, faço votos que o debate sobre o liberalismo inclua o Luís Aguiar Santos, que é o teórico e o historiador liberal deste blogue e com o qual raramente estou de acordo.

10:12 da manhã  
Blogger Daniel Melo disse...

Bom, está visto que o João é que está a aguentar o barco, ainda assim vale a pena dizer isto: a resistência salazarista à modernidade é um ponto essencial para se compreender este regime, não quer dizer que seja sempre com a mesma intensidade ou do mesmo modo em todos os sectores.
E claro, as resistências, instrumentalizações e incoerências da modernização salazarista revelam tanto a extensão da crise dum programa liberal-progressista em Portugal como a oposição violenta e brutal das forças mais conservadoras e reaccionárias a cedências a um programa social mínimo e de progressismo liberal.
O país aveso ao debate e ao pluralismo cívico e cultural, gostoso da cunha, de arranjos e perseguições de bastidores, aí está para o comprovar.
Aproveitei para aprofundar o debate sobre a questão da modernidade no último post do Fuga de 9/8 (neste link directo, se sair inteiro: http://fugaparaavitoria.blogspot.com/2006/08/modernizao-resistncias-e-ambiguidades.html).

1:36 da manhã  
Blogger CLeone disse...

Caro Oão Miguel Almeida,
Obrigado pela atenção, mas não se iluda: os meus ensaios são sobre coisas bem mais recentes, nos quais há apenas referências pontuais a que aqui estamos a discutir. Daí ter indicado como bibliografia num dos posts umlivro de António pedro Mesquita, esse sim um ensaio a ler. O que tenho vindo a afirmar sustenta-se pelos posts (ou não, claro) no Esplanar, mantendo portanto a distinção que o Bruno Cardoso Martins faz e com a qual eu concordo.
E gora vou até ao fuga para a vitória já que o link...

6:09 da manhã  
Blogger Daniel Melo disse...

Peço desculpa, o link directo para o meu post do Fuga saiu mal, pois entretanto alterara-lhe o título e não ficou aqui registado, por erro no processo copy & paste.
O link directo correcto é então este:
http://fugaparaavitoria.blogspot.com/2006/08/modernidade-resistncias-e-ambiguidades.html.

12:40 da manhã  
Blogger CLeone disse...

eu é que peço desculpa por ter deixado passar tantas gralhas no meu último comentário. Entretanto, um último contributo para esta caixa: por mim, concordo com «fascistas islâmicos» para caracterizar a Al-Qaeda, mas se quiserem ser puristas...

1:17 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

caro Carlos tenho um trabalho e estou pedindo ajuda para divulga-lo ele se encontra no site http://www.revistafatorbrasil.com.br/ver_noticia.php?not=29475

12:47 da tarde  

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