terça-feira, agosto 01, 2006

A Guerra do Líbano na Balança da Europa

Hoje, na quinta página de O Público (sem link), Timothy Garton Ash faz um apelo: os europeus devem pesar as palavras acerca da intervenção militar de Israel no Líbano. E ele próprio dá o exemplo, um mau exemplo, em minha opinião. A sua tese é que as razões desta guerra remontam aos pogroms russos de 1881. Nas suas pesadas palavras: «Foi essa história de uma rejeição europeia cada vez mais radical, entre as décadas de 1880 e de 1940, que produziu a força motora do judaísmo político, a emigração de judeus para a Palestina e eventualmente a criação do Estado de Israel. (...) Se a Europa decidira que cada nação devia ter o seu próprio Estado, que não aceitava como membros de pleno direito da nação francesa ou alemã judeus mesmo emancipados, e se eventualmente se tinha tornado o palco de uma tentativa de extermínio de todos os judeus, então estes deviam ter noutro lado o seu lar nacional.» Estas palavras podem ter o peso certo na Polónia ou na Alemanha, mas não em Portugal. Não pretendo negar as aflorações de anti-semitismo no nosso país – inclusivé nalgumas obras literárias de referência como Os Maias - mas este nivelamento da culpa por baixo é inaceitável. Portugal, no século XX, não expulsou judeus. Pelo contrário, acolheu refugiados durante a II Grande Guerra e foi uma ponte para a salvação de judeus nos Estados Unidos. Numa altura em que se confundem os regimes de Salazar ou de Franco com os de Mussolini ou Hitler, convém ressalvar estas diferenças. E louvar a atitude pessoal de Aristides Sousa Mendes, cônsul em Bordéus, que cometeu suicídio profissional para, em nome da sua «consciência católica», passar milhares de passaportes para a liberdade.
Portugal também é Europa e, neste caso, melhor Europa do que França ou a Alemanha. Mas a Europa não acabou nos anos 40, continua a fazer-se, e os ideais que têm norteado a União Europeia são de inclusão e não de rejeição, de afirmação de construção de um espaço comum multinacional, de respeito pelas diversas tradições comunitárias e pela liberdade individual. Muitas posições têm sido tomadas em nome de uma empatia cultural e de uma identidade civilizacional com Israel. Podia ser o meu caso. Listo de seguida alguns dos meus escritores judeus preferidos: Isaac Singer, Primo Levi, Albert Cohen, etc. Porém, o que a condição judaica permite a estes autores é uma crítica contundente ao poder instituído. Na Bela do Senhor, de Albert Cohen, a trágica história de amor, desenvolve-se no contexto de uma ordem internacional corrompida, expressa na Sociedade das Nações, e do sonho de um país – Israel- em que as relações humanas estivessem libertas da violência e da hipocrisia. Qual é a distância que vai da utopia à realidade?
Outro argumento de princípio a pesar nesta guerra é a das esquecidas raízes judaicas da sociedade e cultura portuguesa. Convém contrapor a este argumento que Portugal também possui raízes islâmicas. E, como bem lembra José Leitão, o Líbano não se encontra tão distante do nosso país como parece.
Não penso que a nossa posição face ao conflito deva ser determinada por uma identidade histórica ou cultural. Até porque se existe herança europeia que valha a pena conservar é a da liberdade de julgamento e de expressão. O que penso desta guerra é que Israel possui razões válidas para fazê-la, bem elencadas por Amos Oz, mas cometeu um erro ao decidir retaliar do modo como retaliou - ver aqui uma análise pormenorizada. Um erro agravado pela alegada utilização de bombas de fragmentação em áreas urbanas e pela acções destrutivas em Qana.

4 Comments:

Blogger sabine disse...

Blogue desalinhado? Onde? Nenhum blogue é dealinhado.
Inesquecível, esta parte do texto:
«Numa altura em que se confundem os regimes de Salazar ou de Franco com os de Mussolini ou Hitler, convém ressalvar estas diferenças». Houve diferenças sim, mas nao se esqueça de relembrar o que aconteceu ao Aristides Sousa Mendes depois do episodio que conta. E nao se esqueça de lembrar o recente (à alguns anos) episódio do ouro nazi & outras estórias que nao vou relembrar aqui - ficam para a proxima.

1:42 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Cara Sabine,

Não me esqueço do que aconteceu ao Aristide Sousa Mendes, pessoa que admiro. Nem o episódio do ouro nazi. O que não quer dizer que não continue a ver diferenças entre a atitude de Salazar e a de Hitler em relação aos judeus.
Em relação às diferenças entre Salazar, Franco, Mussolini e Hitler, a grande diferença é entre os três primeiros e o último. É por isso que acho completamente legítimo chamar fascistas aos regimes de Salazar e de Franco, explicitando que se está a falar de um conceito genérico de fascismo.
Diferenças: os regimes fascistas (Salazar e Franco como Mussolini) eram nacionalistas. O nazismo usou o nacionalismo mas, na prática, defendia uma internacional da raça ariana.
As ditaduras ibéricas e a italiana atribuiam um papel fundamental ao Estado, que identificavam com a Nação. Para o nazismo, o Estado era relativizado pelo movimento nazi. O Fhürerprinzip sobrepunha-se a qualquer norma. O Estado Novo era um regime obcecado com a legalidade, mesmo que as leis fossem iníquas e subvertidas na prática.
Quanto ao subtítulo deste blogue, não foi ideia minha, nem a da citação do Orwell, embora me identifique com ambas. Não tenho um programa nem de desalinhamento nem de alinhamento. A ideia deste blogue foi reunir pessoas com ideias diferentes. Registo que esta ideia não é percepcionada pelos leitores, apesar de já ter havido debates internos muito vivos. Lamento a situação mas não vejo o que posso fazer para mudá-la.

4:17 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Ainda sobre o «blogue desalinhado», concordo que nenhum «blogue individual é desalinhado», no sentido em que uma pessoa, mesmo que não tenha uma ideologia definida, ou não pertença a nenhum partido, acaba por tomar posições. Este comentário não está em contradição com o anterior. Eu não tenho uma intenção de alinhamento, mas, olhando para o conjunto de textos que vou escrevendo, pode descortinar-se um fio condutor.
Mas um blogue colectivo pode ser desalinhado no sentido em que procura reunir pessoas com diferentes posições ideológicas ou confessionais. Foi esse o nosso propósito. Pela minha parte, convidei para escrever no blogue pessoas bastante à esquerda e ateias. Infelizmente, não estavam disponíveis.

4:30 da tarde  
Anonymous M. Andrade disse...

Talvez não escape, a um observador relativamente atento, que o Irão tem de há muito uma agenda bem determinada que vai levando a cabo pacientemente. Uma agenda organizada a partir do fundo ideológico que o anima: islão na variante xiita. O programa passa, portanto, pela derrota dos seus inimigos ancestrais dentro do islão, os sunitas, com a correspondente assunção do domínio e direcção da comunidade islâmica mundial. O colapso da monarquia saudita e a extensão de influência a Meca, senão mesmo a sua tomada, é essencial na estratégia de xiitização do islão. A partir daí passar-se-à à concentração de forças na obrigatória expansão contra o infiel, o não muçulmano: Jihad e Jihad mundial na era da globalização. Isto não é conjuntura, é estrutural à sua ideologia, como facilmente perceberá aquele que se der ao trabalho de estudar rudimentarmente o islão e a sua história.
Vingança e guerra santa são duas componentes inextricáveis do islão. VS Naipul já referiu exemplarmente as exigências imperialistas que o islão inapelavelmente coloca, porque lhe são intrínsecas. A componente vingança (não nos esqueçamos que, como toda a falsa religião, o islão transforma o sofrimento em violência e não o contrário) está sobremaneira acesa no xiismo, devido à ideia, não destituída de fundamento mas intensamente remoída, de que foi sendo vítima, ao longo da sua história, de horrendos massacres perpetrados pelos seus correligionários na fé e opositores na reivindicação do poder, os sunitas.
Nesta estratégia de domínio da comunidade islâmica mundial, é fundamental exterminar Israel. Não é de estranhar que a guerra a que hoje assistimos tenha sido tão demoradamente preparada e detalhadamente planeada pelo Irão e que lhe esteja a correr tão bem. E está a correr-lhe especialmente bem não apenas no plano militar, nas frentes que mantém abertas – Iraque e Líbano –, mas sobretudo no plano propagandístico. A adesão das massas muçulmanas, entusiasmadas com as perspectivas de conquista, vingança e humilhação do inimigo jurado desde os tempos de Maomé é natural. Já a vitória sobre a opinião pública ocidental via respectivos media não deixa de ser interessante e sintomática do estado de espírito do Ocidente. Muito eficaz tem sido, nesse campo, a estratégia de utilização, pelas milícias xiitas, de escudos humanos para protecção de alvos militares.
Israel, que sabe exactamente, por experiência própria, a natureza daquilo com que lida e que luta, no imediato, contra mais um extermínio, está a perder a guerra. É determinante e revelador que o Ocidente não consiga ou não queira compreender as consequências desta derrota.
Pouco mais de cinquenta anos depois de a luta contra diversos fascismos ter custado à humanidade uma guerra mundial devastadora, depois de décadas de penosa guerra fria contra remanescentes fascismos, eis que um antiquíssimo e virulentíssimo fascismo (entendido fascismo no seu sentido lato – abuso totalitarizante do poder, sobretudo estatal) dá mostras de nova vitalidade e a parcela da humanidade que lhe poderia opor resistência dá sinais de abdicação.
O preço a pagar, a médio ou longo prazo, pela derrota nesta guerra que se desenrola a vários níveis, propagandístico e demográfico, por exemplo, será o da condenação da humanidade à inqualificável degradação e aviltamento que o islão impõe. Ouça-se VS Naipul: «Islam gradually kills a society, destroying tolerance and pluralism and uprooting people from their history. Islam everywhere it is installed means great social damage, conformity enforced and dissidence suppressed, women's social progress reversed, poverty increased, honored customs abandoned, families disrupted, other religions oppressed, and paranoia rampant. Islam is not simply a matter of conscience or private belief. It makes imperial demands. The disturbance for societies is immense, and even for a thousand years can remain unsolved.»
Um arsenal nuclear não é um instrumento irrisório da Jihad mundial. Nos dias de hoje, é essencial e decisivo, como bem compreendeu o presidente do Irão.
A guerra é inquestionavelmente horrível e todos temos o dever de tudo fazer para a evitar a todo o custo, mas a defesa do pouco de liberdade que a muito custo fomos conquistando exige, antes de mais e contra a simples capitulação perante os variadíssimos tipos de chantagem que um inimigo fanatizado impõe, uma inflexível estratégia de pressão concertada de todos os países onde essa liberdade ainda goza de algum prestígio e onde ainda se prezam certos valores éticos de salvaguarda da dignidade humana. Esta pressão, no plano pragmático - político, diplomático, militar, económico, etc. - deve necessariamente ser concertada, coesa e gradual até à obtenção de resultados concretos. No plano ideológico, devia passar por um aprofundado estudo crítico e científico do islão e da sua história, à semelhança do que já foi feito com outras religiões, por exemplo com o cristianismo, aqui desde os primeiros tempos e a partir de dentro, isto de modo a alcançar a exposição perante o mundo e perante os muçulmanos de todas as implicações do islão, especialmente as sua consequências éticas.
Não nos esqueçamos que não foi Atenas que ganhou a Guerra do Peleponeso, mas Esparta.

1:50 da manhã  

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