domingo, novembro 04, 2007

Corrupção

«Há uma boa miúda num bar de alterne que nos vai ajudar a apanhar os bandidos». A ideia está no filme produzido por Alexandre Valente, embora as palavras possam não ser exactamente estas, e resume o plot. A ficcionalização da história real – Sofia é contactada por um polícia antes de conhecer o Presidente do Clube e desvia-se do bom caminho porque se apaixona por «Luís» não convence ninguém. O que é grave num filme que se pretende um retrato realista da degradação moral do mundo de futebol e da sociedade portuguesa, partindo de uma história real.
A sequência da orgia sexual, que forneceu imagens à campanha publicitária, é dispensável. A maior parte das mulheres têm um ar boçal, o que podia ser um efeito pretendido. Os homens não parecem árbitros de futebol, mas actores porno, o que não surpreende.
O filme desilude? Sim. O filme está aquém das intenções de João Botelho e dá a entender que mesmo a versão final ficará aquém das expectativas dos espectadores? Sim. Arrependi-me de ver o filme? Não me arrependi e talvez o facto se deva a excesso cinéfilo da minha parte. Um filme é uma obra muito complexa e há quase sempre um aspecto que se aproveita. Neste caso, as interpretações de Margarida Vila-Nova e Nicolau Breyner, secundados por outros bons actores: Vergílio Castelo, Rita Blanco, Ruy de Carvalho, etc. Salva-se também um ou outro plano brilhante. E, nas categorias técnicas, a montagem, o guarda-roupa e a cenografia.
Não sei se a minha cinefilia militante chegará para ver a «versão do realizador». Mas tenho uma curiosidade: os 17 minutos que faltam devem atribuir-se apenas ao arrojo comercial do produtor ou à existência de cenas incómodas com personagens «elitistas e sulistas»?

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3 Comments:

Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

Acho-te magnânimo, João.
Dos actores que nomeaste, todos se limitam a cumprir, e apenas isso, nem sequer têm oportunidade para mais; Vila-Nova, se não abusasse dos maneirismos que tão bem caçou à Carolina Salgado, iria melhor.
Quanto ao mais, tirando fotografia, cenografia e edição, foi péssimo. O som, em vários momentos, está desfasado da imagem (sobretudo quando os actores são dobrados com vozes que não as suas), coisa que não via desde o fim dos anos oitenta; a banda sonora é ridícula e distractiva da acção; o argumento e a mise en cène são incompreensivelmente maus para um homem que assinou o "Aqui na Terra" e o "Três Palmeiras"; 17 minutos a mais fariam muita diferença para melhor; mas aguardo pelo "director's cut" para confirmar esta asserção.

As personagens são bidimensionais (alguém acredita naquela pobre "mulher de bom fundo", como diz o polícia, que trabalha tanto e só se fragiliza por amor aos filhinhos? naquele polícia que nunca duvida dela?) e têm um falar que nunca associaríamos àqueles personagens (onde está o célebre cabotinismo do dirigente desportivo?; a grunheza do seu braço direito?), a imagética é bacoca (aqueles sapatos vermelhos que ela leva do princípio ao fim do filme; a tal cena do conclave mafioso; o pagamento a dinheiro ao gorila da claque enquanto é passeado o cão, as efígies dos papa em todas as divisões, , o quadro dos criminosos no quarto de dormir do polícia, etc...). Bem, vou para dentro beber um chá, para me acalmar :)

10:52 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Nos sapatos não reparei. Quando às personagens totalmente de acordo, aliás começo o post por aí. E também concordo com muito do resto que escreves. É possível que esteja a ser magnânime. Como sugeri o excesso de cinefilia pode turvar o senso crítico. Bom chá :)

11:44 da manhã  
Blogger Fernando Martins disse...

Acho que sou capaz de ir ver o filme só por causa do fetiche dos sapatos vermelhos. Já agora, que tal propor um leilão dos mesmos?

2:11 da tarde  

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