quinta-feira, novembro 01, 2007

Doc(less) Lisboa e Cinema para o Povo

Espanta-me esta súbita vaga de amor dos lisboetas pelos documentários sempre que vem o Festival. Espanta-me sobretudo a lassidão com depois aceitam ficar privados de tão indispensável sustento cinematográfico durante o resto do ano. Nada contra o festival e o novo marketing cultural (claro). Mas tudo a favor de programação regular de documentários (no São Jorge? na Cinemateca?) com debates a acompanhar (ou se calhar sou eu que ainda não me integrei no circuito, mas se é assim digam).

E que tal fazer um referendo (municipal) sobre o assunto?

E quanto ao que interessa? Filmes, então.
Gostei muito de Cuba: An African Odyssey no género documentário histórico testemunhal, em que a empatia não empata a pluralidade de testemunhos servida por uma boa montagem. Claro, muito passa em branco por essa via - por exemplo a afirmação de que os EUA ajudavam Portugal fechando os olhos a compara de material militar para as colónias; ou de que a PIDE (sem mais) matou Amílcar Cabral.

Gostei muito de Rock Soup - embora o som inicialmente estivesse insuportavelmente alto, e fosse sempre de má qualidade. Mas essa sujidade sonora de alguma forma ligava bem com o tema. Esta apropriadamente desequilibrada e belíssima Sopa da Pedra documental brilhou nas imagens a preto e branco à la Grande Depressão (como o autor confirmou no debate.) Ao contrário do que se esperararia do consenso supostamente dominantes ("nunca mais!" tal espetáculo de pobreza nos EUA, disse-se durante décadas) estes novos grandes deprimidos não conquistaram grandes simpatias. Um cinema libertário avesso ao politicamente correcto.

Gostei menos de Devil Came on Horseback. A história de um ex-capitão dos marines que se desengana das suas muitas ilusões no Darfur. Suponho que nos EUA este Mr.Smith goes to Sudan converta alguns, mas deixou-me com sentimentos ambíguos. Entre o fascinado com o ponto a que chega a ingenuidade excepcionalista norte-america - do tipo "Eu achava que logo que os EUA soubessem, salvavam o Darfur!". E o impressionado - inevitavelmente e apesar de tudo - com o por lá se passa. No fundo, Darfur merecia história melhor. Mas mais vale que se conte alguma. Por muito complexo que seja o contexto político e difícil a solução, o genocídio, esse, é claro como o sangue.
IMAGEM: Rock Soup in http://www.ifff.de/

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