quinta-feira, março 29, 2007

Salazar e os outros

Talvez de pudessem fazer grandes análises sobre os Grandes Portugueses. Eu fico por duas ou três pequenas (e complementares do que já aqui escrevi várias vezes).

O voto em Salazar foi, sobretudo, um voto de protesto? Não tenho dúvida. Proclama até Rosado Fernandes, no seu estilo de tribuno da plebe, que é um protesto justíssimo! O que ele é, isso sim, é um protesto completamente inconsequente e, portanto, politicamente nulo. Afinal, do que é se queixam os admiradores de Salazar? Das consequências das reformas de um governo que está determinado a fazer descer o deficit das constas públicas para 3%? Mas não são eles grandes admiradores de um grande ditador das finanças que fez do equilíbrio das contas públicas o seu grande dogma e carisma? Grande contradição, não lhes parece?

Já agora, e por falar de inconsequências, talvez algumas elites devessem cuidar melhor da sua própria cultura histórica antes de denunciarem a sua ausência no povo. Segue-se uma amostra de calinadas ditas no dito programa (que não garanto que seja representativa). Escolas laicas com Pombal?! (A religião do Estado, e portanto a de todas as escolas, continuou a ser a Católica.) Salazar manteve o povo analfabeto?!(Entre 1930 e 1960 o analfabetismo desceu de 62% para 30%). Aristides de Sousa Mendes, um homem simples?! (Um diplomata aristocrata, irmão do primeiro ministro dos negócios estrangeiros nomeado por Salazar, e que ganhava bem mais, mesmo com o ordenado arbitrariamente cortado por este último, do que muitos portugueses). Cunhal um homem sempre ao lado do povo?! (Viu-se, quando o povo votou livremente.)
Parece que o país reclama mais história, melhor história. Mas será mesmo isso que se quer? Será que o país aguenta? Ou será que o que se deseja realmente é mais propaganda, melhor propaganda disfarçada de história? Creio que o alguns realmente defendem é, de facto, o regresso da história como apologética, neste caso do regime e das crenças actualmente dominantes (e evidente boas). Eu até acho que o regime actual é superior ao anterior. Mas uma das razões dessa superioridade está na possibilidade de fazer história científica e divulgação histórica de qualidade, nas escolas ou fora delas. Ou seja, sem maniqueísmos ou fretes políticos e educando o espírito crítico. Isso não impede que se fale do facto da repressão da dissidência política pelo Estado Novo, ou das consequências (de vida ou de morte) para os refugiados desesperados do gesto de Sousa Mendes. Só impede que se atire para o regime anterior com todos os males da pátria, ou que se faça do diplomata uma figura acima de qualquer análise. Os historiadores devem resistir ao regresso à história a preto e branco, apenas com mudança de personagens.

2 Comments:

Blogger Henrique Dória disse...

As razões da superioridade do actual regime sobre o salazarismo são muitas, a começar pela estupidez total do salazarismo.Só um total ignorante ou um total desonesto é que é capaz de considerar que Salazar não foi um dos piores governates de sempre. Trata-se de um juízo de valor que é também um juízo moral. E a única vantagem que a boa História tem é permitir-nos ajuizar melhor.

1:43 da manhã  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Caro Henrique

A ideia da História juíza da moral e dos bons costumes está um pouco fora de moda. Por isso, bem mais preocupante do que a votação em Salazar parece-me ser a reacção a ela que parece passar por se querer impor ou vender uma agenda politicamente correcta ao estudo e ao ensino da História.

Reduzir a política aos juízos de valores - e insultar quem se atreve a fazer o contrário - como você parece fazer seria negar a possibilidade de um estudo isento da mesma, seria negar a especificidade, e portanto o sentido, da história política, da ciência política. Seria, em suma, reduzir a política à pura ideologia e à propaganda. O que eu rejeito completamente (ou não faria o que faço).

Aliás, a ser assim, pergunto-me com que argumentos é que se poderia opor, por exemplo, aos que quisessem fazer um museu de louvor a Salazar? Não há liberdade de expressão? Não é tudo política? Seria, segundo você uma estupidez, mas que eu saiba isso ainda não é proibido.

11:29 da manhã  

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