domingo, março 25, 2007

"Injecções de vitaminas”

Muito interessante e importante, apesar de nada analítica, a peça do jornalística que o Público deu ontem (Sábado) à estampa, associando-se assim ao 45.º aniversário da crise estudantil iniciada em finais de Março de 1962, e que se estendeu por boa parte da primavera daquele ano. Dos testemunhos recolhidos, quase todos eles vivos e apenas pontualmente narcisistas, destaco o excerto do diário de Jorge de Miranda que, e não sei porquê, imagino de calções sentado na relva do Estádio Universitário, e esta frase de Manuel de Lucena: “Não me lembro – mas talvez seja idealismo – de uma tão continuada primavera em que havia tudo: amizades, namoros, amor, tudo.”
Ainda sobre a crise, não resisto em reproduzir aqui excertos de um outro diário, o de Franco Nogueira. Lá estão os acontecimentos tal como eram vistos a partir de S. Bento e por alguns notáveis do regime:
Lisboa, 4 de Abril – Estudantes em agitação, e toda a questão universitária é debatida em Conselhos de Ministros. Lopes de Almeida [ministro da Educação] hesita, tergiversa, titubeia. À queima-roupa, pergunta-lhe Salazar: «mas o sr. ministro prometeu ou não que seria autorizado o Dia do Estudante?» Lopes de Almeida mete os pés pelas mãos, fica corado até às orelhas e raiz dos seus poucos cabelos, e com esforço murmura com voz enrouquecida: «não». Estava claramente a mentir. Mas Salazar logo tira a conclusão: «Ah! Bem, então o Governo está livre de proibir o Dia do Estudante». E Lopes de Almeida concorda em publicar uma nota oficiosa proibindo o Dia do Estudante.
Lisboa, 5 de Abril – Publicada nota oficiosa. Demite-se Marcello Caetano, reitor da Universidade Clássica de Lisboa. Sensação no país. Atitude de Marcello Caetano é interpretada como de oposição ao governo. Ao que parece Lopes de Almeida havia-lhe dado a entender que o Dia do Estudante seria autorizado. À noite estou com Azeredo Perdigão e Marcello Mathias: ambos acentuam a importância e mesmo a gravidade da crise universitária. Desencadeou-se um claro estado de tensão e nervosismo. Luís Teixeira Pinto e André Gonçalves Pereira telefonam-me a acentuá-lo. Fervem boatos de greves universitárias.
Lisboa, 17 de Abril – Agitação estudantil em larga escala, demissão de alguns directores de Faculdades, rumores de tumultos sérios para o primeiro de Maio. Em Conselho de Ministros, Salazar diz: «muitos vão precisar de injecções de vitaminas». Analisando a acção que atribui aos comunistas em toda a agitação, comenta: «se nada fizermos, antes de dez anos eles estão sentados a esta mesa.»”
Franco Nogueira, Um Político Confessa-se (Diário: 1960-1968), 3.ª ed., Barcelos, Civilização, 1987, pp. 25-26.

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