quarta-feira, março 28, 2007

Explicações sobre a «pessoa de bem»

Há quem se tranquilize com o facto de um concurso televisivo não passar disso mesmo e das sondagens realizadas afirmarem que, para a maioria dos portugueses, as figuras históricas mais importantes são D. Afonso Henriques e Camões. Eu considero esta discrepância é intrigante e merecedora de reflexão: será que o público da RTP é mais salazarista do que a população portuguesa em geral? Será que uma organização manipulou, pelo menos em parte, os resultados? Se a segunda hipótese for verdadeira trata-se do maior golpe de propaganda de extrema-direita realizado em democracia. Muita gente pergunta: e depois? Tratou-se de uma luta entre comunistas e fascistas. Ambos procurando obter na televisão compensações pelas derrotas infligidas pela História. Ambos afectivamente ligados a regimes desacreditados. Este raciocínio ignora dois aspectos: em primeiro lugar, pese embora o facto dos regimes comunistas terem praticado e praticarem crimes, os comunistas portugueses encontram-se há mais de trinta anos integrados no sistema democrático. Nada nos autoriza a pensar que os «fascistas», com aspas ou sem aspas, e sobretudo sem rosto, que elegeram Salazar como o maior português de sempre possuem a mesma condescendência pela democracia. Em segundo lugar, a vitória de Salazar foi esmagadora.
A afirmação de Jaime Nogueira Pinto de que Salazar nos deixou um Estado concebido como «pessoa de bem» parece (eu não assisti ao programa, li as declarações no DN) ter sido proferida numa acepção económico-financeira. Discutamos então um pouco a política económica de Salazar. A pesca do bacalhau surge-me como uma metáfora forte desta política. Por que é que a pesca do bacalhau era tão importante? Porque as tentativas de industrialização do Estado Novo coexistiram com uma agricultura arcaica, resistente à modernização, que colocava sérios problemas ao abastecimento alimentar das cidades. E por que é que a faina no bacalhau manteve um carácter «heróico» até o ministro Dias Rosas, no marcelismo, liberalizar o seu comércio? Porque o Estado garantia a colocação de todo o produto da pesca no mercado nacional e a pressão para o investimento modernizador na frota pesqueira não existia. Na década de 60, quando as frota bacalhoeiras da Europa e da América do Norte usavam redes de arrasto, havia barcos portugueses que navegavam até ao mar gelado da Terra Nova, onde largavam os pescadores em dóris. Ou seja, pequenos botes individuais onde, com temperaturas muitas vezes negativas, um homem pescava bacalhau à linha. De vez em quando um bote voltava-se e não havia nada a fazer. As doenças mais frequentes resultavam do frio, mas também de um dos poucos entretenimentos, a ingestão do álcool (causava cirrose) e de não usarem luvas para salgar o bacalhau (infecções na pele).
A pesca do bacalhau no Estado Novo é uma imagem das perversões do seu sistema económico e das distorções do imaginário de aventuras. É absurdo que num país com figuras históricas que descobriram o caminho marítimo para a Índia e deram «novos mundos ao mundo» seja o mentor de uma caricatura miserabilista da epopeia marítima a ganhar, na televisão, o epíteto do maior português. Face ao resultado, o slogan da campanha não podia ser mais desastroso: «Só há lugar para um.»
Também suponho ter sido esquecido no debate que o Estado português, durante a II Grande Guerra, foi receptador de ouro nazi roubado aos judeus. Se um Estado receptador é «pessoa de bem», então a bitola está enterrada no lodo.

1 Comments:

Blogger CLeone disse...

Obrigado por não me citar, eu não quero que me tome como ntérprete autorizado do facciosismo do JNP. A tal acepção, se bem entendi, foi essa. Mesmo essa, como já sabe, me parece indefensável, tal como este post insiste.
E quanto a Cardia, quando me dá novidades?
Abraço

11:54 da tarde  

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