quinta-feira, março 29, 2007

As Vidas dos Outros

As Vidas dos Outros é um filme histórico sobre a decadência e queda da RDA, um filme político sobre o fim do socialismo real, mas sobretudo um filme de personagens. É no interior delas que tudo se decide, mesmo nos mais rigorosos constrangimentos. Filme ético, antes de mais, portanto. Trata da queda da bela e desejada Christa-Maria Sieland e da humanização do cinzento capitão da Stasi, o capitão Gerd Wiesler.
O sinistro capitão inicia a vigilância a um dramaturgo, Georg Dreyman, que só um polícia zeloso pode considerar suspeito. A primeira motivação sofre uma reviravolta quando o ministro Bruno Hempf, apaixonado por Christa, a mulher do dramaturgo, pressiona a Stasi para encontrar um pretexto que lhe permita livrar-se do rival.
Christa potencia o que de melhor e pior possuem as personagens apaixonadas por ela: o ministro abusa do poder; o escritor inspira-se; o polícia humaniza-se. Interpretado pelo extraordinário Ulrich Mühe, o longo caminho percorrido até o seu rosto sombrio ser iluminado por um sorriso podia ter como mote os versos de Camões: «Transforma-se o amador na coisa amada, à força de muito imaginar». Neste caso, também à força de muito escutar, como solitário e secreto espectador, a vida do dramaturgo e da actriz. Ironicamente, o escritor é afinal mesmo um «engenheiro das almas», não por causa das posições que toma em relação a ideais abstractos, mas pelas suas palavras e acções perante situações e pessoas concretas.

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