quarta-feira, setembro 06, 2006

Ilações sobre uma cabeçada1

Tenho remoído no projecto de escrever uma série de reflexões sobre a admirável e admirada cabeçada de Zinadine Zidane a Materazzi desde que a vi nos ecrãs. Podem objectar-me que já estou fora de tempo. A cabeçada foi um acontecimento mediático que suscitou muitos comentários e algum «suspense» acerca de quais teriam sido as verdadeiras palavras de Materazzi a Zidane, que sanções é que a FIFA ia aplicar, mas o que lá vai lá vai. Duvido. Há imagens que marcam o imaginário colectivo e continuam a ser comentadas muitos anos depois de terem aparecido. E Zidane faz parte da História do futebol, é um ícone deste início de século.
Confesso que a minha primeira reacção, em directo, foi de espanto e de repulsa misturada com alguma satisfação perversa: ali estava, à vista de todos, uma falta brutal do capitão da equipa da França, país que não resistira a uma onda xenófoba cobrindo os portugueses das acusações de «jogo sujo» e de serem «mergulhadores». À medida que fui reflectindo sobre o acontecimento e as personagens, no entanto, a minha perspectiva foi mudando, como a personagem de Blow Up que vai construindo diferentes enredos a partir das mesmas imagens captadas num jardim público de Londres. Intitulei estas reflexões «Ilações sobre uma cabeçada» numa referência ao título de um livro que não li: «Ilações sobre um sabre», de Claudio Magris. Um resumo do livro colocado on-line afirma tratar-se de um texto construído sobre a ideia da ambiguidade. Uma citação de Magris alcança uma particular ressonância no novo contexto: «Na desconexa e conflituosa multiplicidade da vida, o indivíduo apercebe-se de que é apenas uma precária e provisória cristalização desses conflitos.»
A primeira ambiguidade é saber se esta frase se aplica a Zidane ou se a sua cabeçada marca, pelo contrário, uma vitória de um homem e dos seus valores sobre conflitos precários e circunstâncias acidentais. Se Zidane tivesse respondido ao insulto com um insulto as suas palavras seriam apenas um eco do ruído do mundo. A cabeçada criou um acontecimento, mostrou um estilo e um valor. Um amigo meu, ao comentar a cabeçada, disse: «podia ter esperado pelo fim do jogo». Mas esta espera daria um sentido totalmente diferente ao acto, pois implicava cálculo. Outro francês de origem argelina, Albert Camus, explicou as diferenças entre revolta e ressentimento. A revolta, afirmando-se no momento de uma agressão, apela à justiça. O ressentimento, transferindo a resposta para uma data posterior, resvala facilmente para a vingança.

4 Comments:

Blogger Luís Aguiar Santos disse...

Acho que havia duas hipóteses (ambas bíblicas): dar a outra face, que implicava não responder, e seria a mais perfeita; ou a resposta proporcional ("lei de talião"), no caso responder com outro insulto. Zidane ultrapassou ambas, não sabendo conter-se tout court nem conter-se dentro da lei (da proporcionalidade). Para mim, trata-se de um acto que não merece glorificação (se é que algum acto humano a merece).

11:04 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Eu não estou a glorificar Zidane, mas a tentar compreendê-lo. Neste caso a aplicação da lei de talião é muito discutível: Zidane devia insultar a irmã de Materazzi? As irmãs dos jogadores não eram para ali chamadas. Não estou a dizer que a regra devia prescrever este tipo de reacções. Ele transgrediu a regra e aceitou as consequências. Não foi glorioso, mas foi digno.

10:06 da manhã  
Blogger Luís Aguiar Santos disse...

Foi digno? Não percebo. Mas também não me parece muito importante...

12:31 da tarde  
Blogger João Miguel Almeida disse...

Em português há um ditado: «quem não sente não é filho de boa gente...». Acho que a atitude de Zidane de dizer aos seus fãs para não tomarem o seu gesto como um exemplo e, ao mesmo tempo, recusar-se a pedir desculpas a Materazzi só aparentemente é contraditória. Ele não é santo nem demónio. É um homem, com as suas imperfeições e qualidades.

4:44 da tarde  

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