sábado, setembro 02, 2006

Memórias fernandinas II

A minha primeira lembrança não tem nada de especial. Recordo-me que tinha três anos e estava em casa de meus pais – na rua do Galvão – no corredor junto a um móvel que ficava entre a cozinha, a casa de banho e um quarto. Os apartamentos ou andares – as expressões ainda não se usavam na altura – tinham esta disposição hoje absolutamente irracional das divisões. Era uma casa de três assoalhadas cuja renda ,de um conto cento e dez, como todas as outras como ela, se mantiveram congeladas ao longo das décadas de 1960, 1970 e parte de 1980.
Por volta de 1969 ou 1970 terei tomado, aparentemente, as minhas primeiras posições políticas em público ou, o que é mais provável, dado provas daquela impaciência infrene que tantas vezes toma conta de mim. Comecei a perguntar a torto e a direito quando é que “o Salazar morre.” Se dizer uma coisa destas em casa não causava problemas de maior, na rua era diferente. E ao que parece eu perguntava muito pela morte de Salazar cada vez que minha avó Francelina ou minha mãe me levavam pela mão em espaço público. Segundo a avó Francelina (uma algarvia de S. Bartolomeu de Messines) eu insistia em fazer a pergunta com tom de voz relativamente elevado cada vez que ao fundo da calçada do Galvão se avistava a Praça do Império e uma primeira nesga do mosteiro dos Jerónimos.
Mais tarde, já depois de Abril, mais uma vez – e desta lembro-me bem – minha mãe mandou-me calar na rua, ainda que por perto não houvesse vivalma. Ia eu para a escola, e em pleno Bairro de Belém – produto da obra social e política do Estado Novo nas décadas de 1930 e 1940 – declarei que era informador da PIDE. Estava, pelo vistos, farto de tanto comentário acerca dos informadores da dita polícia e da perseguição que lhes era movida, mas também espantado perante o facto de uma instituição que aos meus olhos permanecera absolutamente secreta durante quase nove anos, ter revelado afinal possuir nas suas fileiras centenas de milhar ou mesmo milhões de diligentes cidadãos portugueses, tanto na “Metrópole” como no “Ultramar”. Como não conhecia nenhum, na minha ignorante esperteza desejava soltar a lebre para, eventualmente, me presenciar um evento que se me afigurava emocionante: a perseguição da populaça ao “informador”, a sua detenção, espancamento e, eventualmente, resgate ainda com vida pela tropa. A propósito de informadores da PIDE devo dizer que para as minhas bandas apenas se falava de um velho (quase) sem abrigo com muito mau feitio (o “Minhocas”). Uma fraca figura, andrajosa, vestida de negro, arrastava-se entre Belém e a Ajuda com um cão preto atrás de si. Tudo isto, naturalmente, me criva um dilema: ou bem que as suspeitas eram totalmente infundadas ou a PIDE fora uma instituição com um conceito muito particular de diligência e eficácia.
Apesar do fascismo, devo dizer que guardo excelentes recordações daqueles tempos. Os jardins em Belém encontravam-se muitíssimo bem cuidados, a começar pelo do “Ultramar” – hoje “Tropical”. A entrada era gratuita e o núcleo macaense estava um brinco, como aliás todo o jardim. Na Praça do Império e na Afonso de Albuquerque – onde ia muito menos porque não havia e contínua a não haver cisnes. Com cinco e seis anos frequentei a escola infantil: o “Capuchinho Vermelho”. Ficava numa moradia do Bairro de Belém. Adorava a escola. Sobretudo no primeiro ano. A meio do segundo mudou a gerência e a qualidade baixou. Os donos originais, um jovem casal com uma filha, deixaram para trás a escola que lhes pertencia. Eram novos e apesar da vida não lhes ser madrasta na metrópole optaram por partir para Moçambique. No “Capuchinho Vermelho”, aprendi a ler, a escrever e as primeiras palavras de francês. Fartava-me de fazer petroleiros de barro. E claro, no “Capuchinho Vermelho” apaixonei-me pela primeira vez. Chamava-se Laura – adorei este nome durante os primeiros vinte anos da minha vida – e era morena. A certa altura achei que a paixão, ou qualquer coisa parecida, era correspondida. Se assim foi os deuses vingaram-se, porque a partir dos seis anos não me cansei de coleccionar fracassos amorosos. A maldição durou mais de duas décadas. De qualquer modo era tudo platónico. Mas eu adorava. Não admira. Naquele tempo dificilmente alguém se podia gabar de beijar uma rapariga na boca antes de entrar para Universidade.
No Verão a minha mãe levava-me para praia durante quase todo o mês de Julho. Saíamos muito cedo, apanhávamos o barco em Belém e desembarcávamos na Trafaria. Aqui apanhávamos a “camioneta” para a Costa – ainda me lembro da primeira viagem em que paguei bilhete apesar de ter uns quatro ou cinco anos e viajar ao colo da minha mãe. A costa era um fartote. As “camionetas” eram bordeaux e de um cinzento metalizado. Deixavam-nos ao pé do mercado. Íamos por ali acima em direcção à praia numa altura em que não havia pontões a proteger a erosão da costa. No regresso minha mãe comprava-me um gelado numa de duas excelentes geladarias que havia na rua principal da Costa da Caparica – ficavam no lado direito de quem descia, uma lá em cima, outra cá em baixo. Adorava a Trafaria, os barcos, o forte amarelo e o cheiro de um rio Tejo na altura ainda não muito sujo naquela zona do estuário.
Outra vez em Lisboa, subíamos a calçada da Ajuda. Íamos almoçar a casa e eu vinha quase exausto. Mesmo assim adorava subir a calçada da Ajuda, debaixo das árvores, até ao quartel da Polícia Militar, depois do qual virávamos para a calçada do Galvão cruzando o Pátio das Vacas. A calçada da Ajuda animava qualquer criança que não fosse precocemente pacifista. Havia soldados de cavalaria da GNR em sentido, de sentinela, na entrada do Palácio de Belém que dava para a dita calçada. Mais acima ficava Cavalaria 7 e a PM. Era comum ver cavalos cruzando a calçada e era possível mais do que vislumbrar, quando as portas das garagens (à esquerda) e do quartel (à direita) se encontravam abertas, viaturas blindadas ali estacionadas. As mesmas que regularmente subiam a calçada do Galvão em direcção ao Monsanto e onde, supostamente, executavam manobras militares. As lagartas deixavam marcas no alcatrão e o cheiro e o ruído que faziam eram talvez a maior animação a que podia assistir desde a varanda lá de casa. Da mesma varanda assisti durante anos a fio ao desfile de super-petroleiros no rio Tejo. Por ali passavam e ali ficavam para serem reparados nos estaleiros navais da Lisnave. Via a Ponte sobre o Tejo a quem ninguém chamava Oliveira Salazar, apesar de assim ter sido baptizada. Mas, sobretudo, assistia à chegada e à partida dos cadáveres de militares mortos na guerra colonial. A Igreja da Memória, a 30 metros da varanda onde passei horas e horas da minha infância, pertencia às Forças Armadas. Por isso, e talvez por ficar localizada num lugar discreto, por lá passavam os caixões com os corpos dos mortos. As mães, sobretudo as mães, choravam muito. E se outras mães, como a minha, assistiam das suas casas a um espectáculo triste e duro, pensando que aos seus filhos estava guardada a obrigação de ir para aquela guerra e nela eventualmente perder a vida – mesmo não morrendo – para mim sempre pareceu um acontecimento triste mas digno. Morriam, mas morriam pela pátria. Pode parecer estranho, mas eu tinha uma noção clara daquilo que era o espaço geográfico do Portugal metropolitano e ultramarino e orgulhava-me dele. Sabia que Portugal era pequeno na Europa mas grande no mundo, e gostava! Achava que valia a pena morrer por ele. No entanto, presumo que caso ainda houvesse guerra quando eu chegasse à idade adulta, não me cansaria de ter lutado contra ela, da mesma forma que sempre tive a secreta esperança, aos 22 anos, de passar à reserva territorial e não cumprir o então Serviço Militar Obrigatório. Acabei por "assentar praça" na EPI em Mafra no mês de Fevereiro de 1989.
Se não me lembro do funeral de Salazar, recordo-me bem das “conversas em família” do professor Marcelo Caetano. Ou porque não tinha mais nada para fazer, ou porque gostava de o ouvir. A avó Maria – galega, franquista pragmática dos quatro costados e, mais tarde, saudosa circunspecta de Marcello Caetano e de Oliveira Salazar – era espectadora atenta, sobretudo de tudo aquilo que dissesse respeito a subida de preços.
Não apenas por causa dos funerais, recordo-me muito bem da guerra colonial. Das mensagens de Natal dos militares estacionados em África – sabia que a tropa morria, mas pareciam-me sempre felizes, bem alimentados e capazes de defender o “Ultramar”. Já as mulheres lá de casa afligiam-se ao verem o programa, embora deixassem cair sempre palavras de incentivo, como se pudessem ser ouvidas pela tropa no “Ultramar” ou pelas famílias na “Metrópole”. Mas isso era coisa de mulheres. Eu só pensava em crescer e ir para África combater os inimigos da pátria – infelizmente não me lembro da exacta terminologia usada. Estava convencido de que os “nacionalistas” combatiam apetrechados com armas idênticas àquelas que exibiam os africanos que perseguiam o Tarzan nos filmes que passavam ao Domingo à tarde na televisão. Só o 25 de Abril me permitiu descobrir que tinham Aks 47, bazucas, foguetes e outros argumentos bélicos.
Na altura, por causa dos condicionalismos económicos impostos pelo corporativismo, o negócio de meu pai não prosperava. Só nas vésperas de Abril é que o “Café” – misto de taberna – começou a dar alguma coisa. O desmantelamento do corporativismo económico iniciado por Marcello produziu resultados. Foi nessa altura que meu pai tirou a carta e comprou um carro – tinha 35 anos (o meu pai, não o carro). Era um Toyota Corolla, novinho em folha, azul claro, com direcção muito leve, duas portas, sem rádio e uma mala onde cabia muito pouca coisa.
Foi também no tempo de Marcello que pela primeira vez os comerciantes puderam começar a descontar para a “Caixa” – para a reforma – e a ter assistência de saúde paga pelo Estado. Estas medidas fizeram com que para a avó Maria – que governara praticamente sozinha uma taberna e uma carvoaria entre 1939 e 1961 – e para meu pai não apenas o futuro lhes parecesse mais risonho – iriam ter uma reforma. Por outro lado, e tal como a minha mãe, nunca esqueceram o bem que Marcello Caetano e o fascismo lhes fizeram – mesmo que esse bem seja visto hoje como uma obrigação do Estado e um direito de todos os cidadãos.
Lembro-me bem do dia 25 de Abril de 1974. De manhã saí de casa para a escola mas no “café” do meu pai, onde eu sempre ia tomar o pequeno almoço, fui mandado à procedência. A loja estava cheia de gente a comprar tudo aquilo que houvesse para comer – bolachas, café, manteiga, conservas, bolos, leite, iogurtes, leite com chocolate UCAL, vinho, vinagre, sal, etc., etc. Era óbvio que toda a gente pensava que a coisa ia durar dias e que só por sorte é que não haveria guerra civil. É curioso que em nenhum relato do “25 de Abril” aparece esta corrida aos “abastecimentos”, esta natural tentação açambarcadora perante um acontecimento militar cujos contornos se desconheciam em absoluto.
Do ponto de vista económico o dia 25 de Abril foi um bom augúrio para o meu pai. Facturou, facturou, facturou e à hora de almoço, com o caixa cheia e seguindo os apelos do MFA, veio para casa. Durante a “revolução” e depois já no decurso da normalidade democrática, o negócio prosperou com uma moderação generosa, ficando para trás os anos relativamente difíceis de 1965 a 1968 ou 1969.
Lá em casa ninguém tinha ideia do que é que poderia acontecer. Meus pais tinham vivido mais de trinta anos sem conhecerem sobressaltos políticos de maior. Minhas avós, porém, temiam que se regressasse e regressassem as infindáveis revoluções e golpes que tinham assolado o País, e sobretudo Lisboa, na década de 1920 e parte da seguinte. Ao fim do dia, quando as coisas já estavam mais calmas, a avó Maria só fazia votos para que os preços deixassem de subir, ao mesmo tempo que lamentava a saída de Marcello, um homem francamente “bom” e, sobretudo, “sério” e “honesto”.
No entanto, o 25 de Abril teve, ao menos para mim, uma marca inapagável. No dia em que os portugueses eram libertados, o sol não brilhou. Chuviscou, houve uma aberta ou outra, mas certo é que os Deuses, ao menos em Lisboa, não permitiram que saísse o mais tímido raio de sol para aquecer o povo e iluminar os seus pastores que, para a tarde, começaram a aparecer por todo o lado. Sempre achei, tanto no dia 25 de Abril de 1974, como frequentes vezes nestes últimos 32 anos, que o cinzentismo do dia queria e quis dizer qualquer coisa. Mesmo que, ou por causa de, o 1.º de Maio ter sido um dia com um sol radioso.

3 Comments:

Blogger Luís Aguiar Santos disse...

Gostei. As minhas memórias do 25 de Abril foram apenas, em Luanda, ter a festinha de anos adiada para o Sábado seguinte por causa dos "acontecimentos"... Soube depois, em conversas familiares, como a minha mãe reagiu à notícia, dada pelo meu pai: "por trás disso estão os comunistas...". O meu pai tranquilizou-a: não, à frente daquilo está o Spínola... A minha mãe manteve a sua. Só lhe interessava quem vinha "atrás". As mulheres são muito práticas...

7:06 da tarde  
Blogger Fernando Martins disse...

Obrigado pelo cumprimento. Seriam interessantes as tuas memórias de África e de regresso à (ainda ?) metrópole!

11:47 da tarde  
Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

Fernando, que belo post.

11:23 da tarde  

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