segunda-feira, junho 12, 2006

Wanted Dead : Zarqawi

A morte de Zarqawi será chorada por poucos. No Mundo Islâmico, onde os EUA não são exactamente populares, a sua obsessão sangrenta com os xiitas tornou-o uma figura odiada por estes, e olhada com grandes reservas por muitos sunitas também. (Os xiitas para ele são hereges que põem em causa a unicidade de Deus e a unidade do Islão. Por isso insistia que havia que eliminá-los, começando pelo Iraque, o único país árabe onde estão em maioria). Tudo isso, e os ataques frequentes a civis iraquianos e mais recentemente jordanos, deixaram-no com muito poucos amigos. Aparentemente até Bin Ladin tinha as suas reservas. (A ser verdade, evidente que por razões estratégicas e não humanitárias).

Obituário? Decapitador de civis a sangue frio. O homem que terá estado por detrás do ataque à representação da ONU e da morte de Sérgio Vieira de Melo. O principal promotor da guerra civil larvar entre xiitas e sunitas no Iraque. E tudo isto ao serviço de uma estratégia, de que quanto pior melhor, de que só uma guerra civil entre sunitas e xiitas poderia forçar os EUA a sair do país, e levar a al-Qaida a reconquistar um santuário para preparar "em paz" os seus planos de terrorismo a uma escala global.

Zarqawi começou a vida como um marginal na Jordânia. E foi na prisão que descobriu a religião, e a sua capacidade de organizador e mandante. Como muitos outros conversos apressados e tardios passou rapidamente à intolerância para lavar pecados passados, e canalizou a sua violência para fins mais ambiciosos. Mas quem quiser mais detalhes, pode ver uma biografia muito completa, nesta magnífica grande reportagem no número que está para sair da Atlantic Monthly. (Subscrição requerida: mas a revista deve estar à venda nas livrarias).

A grande questão é: qual o impacto da sua morte? Parece impossível que possa ser outra coisa que não positiva. Mas a realidade é sempre um pouco mais complicada. Pode vir a ter um impacto positivo em termos do fim dos ataques mais sangrentos. Sobretudo se os jihadistas mudarem de tácticas. Mas no curto prazo podem querer fazer algo espetacular para vingar o líder. Prometedora é a aparente penetração da organização pelos serviços secretos americanos. (Supostamente dezenas de outros refúgios da organização foram visados logo a seguir à sua morte). Prometedora também a colaboração com serviços secretos árabes, em particular com os jordanos, que claramente vingaram assim as três bombas que Zarqawi tinha plantado em hotéis no seu país de origem. A Jordânia quis acabar com ele antes que ele estendesse a sua campanha ao resto do Médio Oriente. Neste aspecto, sobretudo, a sua morte parece positivo, ao reduzir, pelo menos de momento, as possibilidades dessa perigosa contaminação.

O impacto mais provável do fim de Zarqawi será reforçar a tendência para a insurreição se iraquizar. O que até a pode tornar mais popular. Muito depende daquilo que o governo iraquiano e os EUA fizeram com este troféu. Conseguirão aproveitar para isolar a al-Qaida? Conseguirão recuperar alguns grupos de guerrilheiros sunitas mais moderados (se ainda os houver)? A primeira hipótese parece mais realista do que a segunda. Mas uma estratégia integrada é algo que tem faltado ao lado americano desde o início desta campanha. Zarqawi conseguiu aproveitar os erros dos EUA para levar o Iraque à beira da guerra civil. Será que ao precipitar-se no abismo, ele arrastará o país consigo, ou cairá sozinho? Essa é uma pergunta que vale bem os 10 milhões de dólares que os EUA estavam dispostos a pagar por Zarqawi.

2 Comments:

Blogger sabine disse...

Por mim Zarqawi nao sera chorado de certeza. Nao faltarao terroristas para o substituir e nao gostei da iconizaçao americana ao homem! A America anda a prpmover terroristas para se auto-promover!

9:29 da tarde  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Olá Sabine.
Estes grupos são muito bons a auto-promover-se usando a internet e as cadeias de TV. Duvido que mesmo que os EUA o tivessem ignorado a diferença fosse muito grande.

Mas admito que possa ter alguma razão. Há especialistas na região que também acham que os EUA lhe deram demasiada importância (ao insistirem no peso dos estrangeiros e da al-Qaida na insurreição no Iraque).

Que não faz falta ao mundo estamos, no entanto, de acordo.

12:17 da manhã  

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