segunda-feira, maio 22, 2006

Independência?

Montenegro, o único Principado cristão independente nos Balcãs durante os séculos de dominação Otomana, foi o primeiro aderente ao projecto da federação dos eslavos do Sul sob patrocínio da Sérvia pós-1918. Mas parece agora encaminhar-se para a independência.

A ser assim é a morte, ainda mais amarga e desastrosa do que provavelmente alguém teria previsto, do sonho de Milosevic da Grande Sérvia. (Com o Kosovo à espreita. E sendo que o actual primeiro-ministro do Montenegro e líder independentista - estas coisas nunca são simples - é um antigo aliado do dito Milosevic).

A ser assim é mais um memento de como é complicada a história dos Estados, das nações e das comunidades linguístico-culturais. (Afinal o que o distingue realmente o Montenegro da Sérbia? A língua não é certamente; mas na Suíça também se fala francês e alemão.)
A ser assim é mais um recordar de como a ideia de independência é ambígua apesar da aparente clareza. (Neste caso a independência parece sobretudo expressão da vontade de abandonar um um projecto político federal falhado, o da Jugoslávia, para melhor aceder a outro ainda mais ambicioso, mas aparentemente mais prometedor, de uma Europa unida.)

A ser assim é o recordar mais uma vez da sabedoria do cepticismo quanto à salvação do mundo por fórmulas simples, como seja a auto-determinação dos povos. (Dizia Sir Ivor Jennings: 'Antes do povo decidir o que quer, alguém tem de decidir quem é o povo que vai decidir'.)
Moral da história? Se tem de ter uma... Assim se mostra que a ideia de que o iberismo seria a solução para os males de Portugal é pior do que um crime (de traição), é um erro (de avaliação).

7 Comments:

Anonymous Max @ Devaneios Desintéricos disse...

Bom post, excelente blog!! Apenas um reparo: a Suíça do Francês e do Alemão, mas também do Italiano e do Romansch (língua oficial da Conferederação e no Cantão de Graubunden) é um milagre histórico da Ciência Jurídico-Constitucional. As razões que explicam a confederação são absolutamente singulares e únicas, razão para que talvez não devesse ser tão usada como exemplo.

A Suíça, quanto a mim, é mais a excepção que, confirmando a regra, demonstra a inviabilidade de utopias unitárias.

Os melhores cumprimentos e os sinceros parabéns

2:11 da manhã  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Caro Max

Belo nome de blogue, que me pareceu bem viajado.

Caro que tem razao. Na Suica ha quatro linguas oficiais (como qualquer fa da BD do Daniel Ceppi sabe). Mas eu nao disse que SO se falava alemao e frances. Alias, falar, falar, ate portugues se fala bastante (e algum servo-croata-montenegrino-bosnio). Mas fica a precisao feita.

Embora tenda para o pessimismo na analise, procuro o optimismo na accao, e espero por isso que consigamos fazer mais Suicas (ainda que talvez mais realmente confederais). A alternative nao e brilhante. Mas concordo consigo que e dificil. Basta ver como a UE e pouco estimada apesar do seu admiravel sucesso.

5:38 da tarde  
Blogger João Pedro disse...

O que separa a Sérvia do Montenegro? Talvez terem pouca história em comum, e o pequeno estado do Adriático só se ter unido com os de Belgrado em 1918.

3:50 da manhã  
Anonymous Cristina Ribeiro disse...

Concordo com o João Pedro.O Montenegro ,País soberano e com identidade própria,começou por acolher bem a Sérvia,no final da 1ªguerra mundial,mas logo em 1919,aquando do Natal ortodoxo,sublevou-se,logo que se deu conta das pretensões hegemónicas dos sérvios.

2:50 da tarde  
Blogger bruno cardoso reis disse...

Caro João e Cristina

Esse levantamento falhado de 1919 não é mais representativo do que o facto de, um ano antes, a família real ter sido deposta e com ela ter terminado a independência do principado montenegrino.

A maior parte dos montenegrinos definiam-se a si próprios como sérvios durante os séculos de existência independente. Antes de 1918 (como agora) havia quem reclamasse que não fazia sentido haver dois estados sérvios. Depois de 1918 (como agora) havia quem reclamasse que Belgrado mandava de mais. É dessas (entre outras) ambiguidades de que eu falo.

1:04 da manhã  
Blogger João Pedro disse...

Percebo as afinidades entre os dois povos. De facto, etnica e culturalmente pouco os separa, mas o mesmo se poderá dizer da Galiza e Portugal - pelo menos o norte.
A única coisa que realmente me preocupa, para além de poder ser sentido pela Sérvia como um enfraquecimento ainda maior, são os sinais de encorajamento da independência do Kosovo, que seria, esse sim, um estado perfeitamente artificial.

8:26 da tarde  
Blogger deletereo disse...

...“Um estado perfeitamente artificial”… boa ideia. Se calhar, o único Estado perfeito seja o artificial.

8:59 da tarde  

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