terça-feira, fevereiro 07, 2006

Choque de Civilizações na Blogosfera e Mark Twain


O nosso Ocidente como civilização superior? É um termo escorregadio em que VPV patina um pouco. Superior em quê? Felicidade, génio, amor ao próximo, ou até, potência sexual? Elogio em boca do próprio é vitupério (faz Camões dizer ao pobre Vasco da Gama antes de ele fazer precisamente isso, «porque Vossa Alteza pede»). É avisado aviso. Convém desconfiar da tentação de pensar que nós somos os melhores. Tentação a que os radicais Islamistas cedem em elevadíssimo grau. O que só por si nos deveria levar a evitar tais caminhos. Tudo pontos em que estou inteiramente de acordo com o que diz o Rui Tavares, com quem eu convivi com gosto, apesar (por causa?) de algumas disputas, no Barnabé.

Mas parece-me que aquilo a que VPV realmente se refere é, com mais precisão, e como deixa mais claro aqui, o facto do Ocidente ter sido a civilização dominante nos última séculos. Ou seja, aquela que, pela pujança económica, tecnológica e militar tem dominado o sistema internacional. Isto é um facto. Foi precisamente este predomínio que permitiu perpetrar os massivos massacres a que o Rui Tavares alude. (E que têm a vantagem e honestidade de mostrar que isto de fanatismos sangrentos não é reserva dos crentes; ateus e anticlericais também têm garantido um abastecimento regular do produto).
Certo, estas coisas não duram sempre. O Islão, a Índia, ou a China já estiveram nessa posição de predomínio, pelo menos na parte do mundo que lhes era útil. (E não massacraram menos tendo em conta as limitações da época). A China poderá estar agora de regresso. Mas isso são outras conversas.
Um outro facto fundamental neste debate é que o Ocidente realmente oferece mais direitos, liberdades e conforto material aos seus cidadãos. Dizer isto é perfeitamente legítimo. Contrariá-lo também, claro, estamos no Ocidente. Mas todos os dados apontam nesse sentido: desde o grosseiro PIB per capita; até ao bem mais relevante índice de desenvolvimento humano; passando pelos direitos garantidos na lei e os índices de democraticidade efectiva da Freedom House; para chegar aos países de origem de migração forçada e aqueles onde mais se procura asilo (embora aqui os números sejam mais difíceis de comparar). É este constraste que explica as exigências de que o governo dinamarquês peça desculpa pela publicação de caricaturas num jornal. No Ocidente isso não faz sentido. Em muitos outros sítios faz.

Como é válido – sobretudo à esquerda, diria eu – defender que há valores liberais de valorização da dignidade humana, que tendo surgido no Ocidente, podem e devem ter um alcance universal. Estão consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, a que todos os membros da ONU prestam pelo menos hipócrita vassalagem. Isto não quer dizer que se defenda a sua imposição pela força. Mas estes valores, não sendo naturais no Ocidente, consolidaram-se aqui com muita luta. E podemos e devemos continuar a lutar por eles no Ocidente e fora dele. Quem quiser que os siga. Eu sinceramente acredito – ao contrário talvez de VPV, provavelmente neste aspecto de acordo com o Rui Tavares – que há muito quem o queira fazer, se os deixarem.

Particularmente pertinente ao discutir a querela dos ícones é, como o fez VPV, recordar que existe, uma longa tradição de sátira do Cristianismo nos últimos séculos. Um bom exemplo na blogosfera nacional é o abaixo assinado promovido pelo Barnabé para libertar a irmã Lúcia do seu convento. (Na altura comentei que era um pouco como os escuteiros que querem obrigar uma velhinha a atravessar a rua para reclamarem uma boa acção). Sempre achei um exercício saudável para os crentes conviver com a sátira. E retaliarem. Mas na mesma moeda. Ou seja, testando o sentido de humor dos humoristas: uma prova que alguns «livre-pensadores» falham miseravelmente. (Não é o caso do Rui Tavares.) É que há uma diferença fundamental entre o protesto pacíficos de cristãos no Ocidente, há muito habituados a estas liberdades com mais ou menos piada, e estas manifestações de radicais islâmicos cada vez mais ameaçadoras e violentas.
Finalmente, fica mais uma vez claro que há muito quem se empenhe em suprimir opiniões alheias e diversas, nas religiões, mas também fora delas, com vários pretexto e de várias maneiras. Que lhes faça bom proveito (e certamente fará, o mundo sendo o que é). Eu vou estar sempre do contra, desde que certos princípios básicos sejam respeitados. Mais haveria a dizer sobre isto, mas prefiro dar voz, para terminar, a um dos meus gurus preferidos. Veste-se bem. Tem bigode farfalhudo. É pouco dado a homilias. (Assim não ofendemos as sensibilidades eventualmente mais delicadas de alguns não-crentes). Dá pelo pseudónimo de Mark Twain: it is admirable to do good, it is also admirable to say to others to do good – and a lot less trouble. [Tradução: pregar (tolerância, respeito pelas crenças alheias) é fácil, praticar é mais difícil].
ADENDA - A este propósito, evidentemente que o comunicado do MNE é absurdo. Foi violada alguma lei na Dinamarca? Foi violada alguma lei em Portugal? Haveria caricaturas se esses critérios fossem seguidos? O que é que o governo português (ao invés do tribunais) tem que ver com isso? Pelo menos, valeu-nos a UE vir deixar claro que se forem decretados boicotes de bens dinamarqueses isso resultará em sanções retaliatórias. Não menos evidente é que se isto resultar num quebra do abastecimento de petróleo - o que apesar de tudo me parece improvável, há demasiados interesses em jogo - a defesa dos nossos valores vai sair-nos cara. Quem disse que eram baratos? Quem disse que uma política energética sustentável era coisa de ecologistas chatos?

2 Comments:

Anonymous Joao Pereira disse...

Antes de apresentar o meu comentário, tenho a dizer que tenho vivido na Arábia Saudita desde Dezembro de 2004. E que tenho tido a oportunidade de conhecer melhor esta sociedade profundamente diferente daquela que é apresentada pelos media ocidentais.

A grande maioria dos islâmicos são contra o terrorismo, e tratar mal uma mulher tem o mesmo peso mediático que tem em Portugal. É algo socialmente censurável, e as mulheres têm acesso a meios de defesa que se calhar em Portugal, só agora está ao mesmo nivel.

Mas toda esta polémica sobre os Cartoons do Maomé é um dos mais marcantes pontos de desencontro de civilizações.

Conseguiu unir todos os islâmicos, fazendo boicotes aos produtos dinamarqueses, e manifestando o seu descontentamento através de muitas acções pacificas (fazendo lembrar a união dos Portugueses em Setembro de 1999 por Timor-Leste). E existem sempre os imbecis que não fazem nada na vida e que são facilmente manipuláveis para atacarem umas embaixadas e queimar umas bandeiras.

Mas o que realmente é impressionante na polémica dos Cartoons do Maomé, é a total inabilidade destas sociedades de entenderem o que é a separação entre o Estado e a Religião, e o Estado e a comunicação social. Mesmo os mais cultos, dos meus colegas sauditas(Que estudaram no estrangeiro!), não conseguem entender realmente que o Estado Dinamarquês não pode mandar nos Jornal. Não sabem o que é uma imprensa livre! Mas mais do que isso não sabem o que é um Estado sem Religião.

A argumentação utilizada é algo do qual já nos libertámos há muito. "No Corão estão escritas todas as regras de conduta de um estado, o que fazer em diplomacia, como tratar do povo, etc!", "Portanto, não podemos dissociar o Estado da Religião".

Este choque civilizacional é muito profundo. A civilização Ocidental lutou muito por estas regras. São regras que damos como adquiridas, mas que fizeram jorrar muito sangue. Muitas injustiças foram feitas, também, nessa luta.

O Comunicado do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros de Portugal é uma cedencia sobre algo que devemos dar muito mais valor. A cedencia, por minima que seja neste assunto vai fazer da Europa, quer seja a Auto-regulação da Imprensa europeia, quer seja apenas um comunicado, não frisando a Liberdade de Expressão. Será usada por todos estes países como arma de chantagem para o próximo conflito. E estes países necessitam muito deste tipo de conflitos para esconderem a incompetencia dos próprios lideres.

Mas o que é mesmo ridiculo, é o facto de terem escolhido a Dinamarca como arma de arremesso. A famosa série animada do SouthPark que passa aqui na rede de canais da Arábia Saudita tem um episódio em que o Maomé, Jesus, etc... são todos caricaturizados e ridicularizados num dos episódios em que estão todos no Inferno. E Cartoons do Maomé já foram publicados ao longo dos anos tantas e tantas vezes que esta situação é mesmo muito ridicula.

10:12 da tarde  
Anonymous Joao Pereira disse...

... só para vos dar um inside sobre como este assunto já está a ser usado, no jornal mais ocidental da arábia:
"A voluntary code of conduct by the press in the European Union “will give the Muslim world the message: We are aware of the consequences of exercising the right of free expression,” European Justice and Security Commissioner Franco Frattini told the Daily Telegraph newspaper. “We can and we are ready to self-regulate that right.” The EU’s foreign policy chief Javier Solana is to travel to Muslim countries to try to calm some of the anger." in Arab News

http://www.arabnews.com/?page=4§ion=0&article=77579&d=10&m=2&y=2006

10:32 da tarde  

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