domingo, fevereiro 05, 2006

Um filme sobre os fins


Independentemente de outras considerações que se possam fazer sobre o filme "Munich" de Steven Spielberg, há duas que eu quero aqui deixar. A primeira é registar a excelente reconstituição do início dos anos 70 que nele aparece; é-se realmente transportado àquela época em vários ambientes urbanos (os carros, os cartazes, os penteados, os modos...). A segunda é a reflexão que o filme me inspirou e que eu só sei exprimir como sendo a desumanização através da paixão política. Não sei se era essa a intenção de Spielberg, mas foi assim que eu vi e senti o seu filme. Um judeu reflecte sobre um conflito de consciência noutros judeus contemporâneos entre a sua ética religiosa (ou os seus vestígios) e as exigências da sua suposta expressão política no sionismo e na "razão de Estado" israelita. E esse é um conflito que alguns podem calar (como a mãe do protagonista, aconchegada na ideia de que defende um "lar nacional" que a protege das mágoas de um passado de que não se libertou), mas outros não: aqueles que no filme foram incumbidos da missão vingadora das vítimas do atentado de Munique e que, sendo os próprios agentes da violência e da vingança, sentem no corpo a sua própria brutalização. Mas o que é uma graça é que alguns daqueles homens, no meio de tal experiência, tenham ouvido os gemidos da sua consciência... A cena final, na qual o "não-agente" do Mossad convida o seu agente de ligação a partilhar o pão, diz tudo; melhor, a recusa diz tudo. Porque ficamos confrontados com o absurdo: se já não são capazes de partilhar o pão, o que defendem aqueles judeus? Haverá, do "outro lado", experiências similares a relatar?

Publicado em L&LP, AP e CL

3 Comments:

Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

Cheguei há pouco de ver o filme, Luís, e a cena final que destacas é bem a expressão de como o essencial se perder em cenário de luta. Impressionou-me também aquela cena inicial, a da inocência com que os atletas americanos, regressados do Biergarten à Aldeia Olímpica, ajudam os seus insuspeitos semelhantes a galgar o portão de segurança. Acho Spielberg condensa todo os receios contemporâneos nesse plano.

[Boa semana!]

11:37 da tarde  
Blogger Rui Castro disse...

Também vi o filme no fim de semana, mas ficou-me uma dúvida. A dada altura, fiquei com a ideia de que a mulher do personagem principal diz qualquer coisa como "nós não somos judeus". O que, a mim, me surpreendeu ainda mais, pois dessa forma a questão religiosa nem existia, pelo menos no que respeita a esse mesmo personagem.

12:25 da tarde  
Blogger Ana Cláudia Vicente disse...

Rui, também fiquei nessa dúvida de saber se o casal era mais israelita que judeu...

3:39 da tarde  

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