sexta-feira, fevereiro 03, 2006

O que é um bom livro ?


Não intervim na discussão sobre as «cliques culturais» porque nada teria a acrescentar ao que o Bruno Cardoso Reis escreveu neste blogue. O Afonso Bivar, além de tomar posição sobre a polémica, tentou colocá-la num nível superior num post que se pode ler aqui.
Escreveu o citado bloguista: «Boa parte das tensão e polémica poderia ser eliminada, ou pelo menos esbatida, de maneira relativamente simples. Bastaria os críticos tornarem explícita a sua grelha crítica.»
E abriu as portas à discussão sobre os critérios que deviam ser incluídos na grelha: «o João Pedro George, correspondendo a um consenso alargado, elegia a narrativa e a fluidez da escrita como dois dos seus critérios nucleares de apreciação de um livro (não dizia assim mas depreendia-se). Para mim, em literatura, a história, a narrativa, a história ser bem ou mal contada, melhor dizendo: haver uma história (que se conta) diz-me pouco ou nada; o mesmo quanto à escorreiteza da escrita.»
Infelizmente, a discussão sobre critérios críticos não rende tanto na blogosfera como a denúncia ou a simples má-língua sobre as redes de influência. Como escreveu o Bruno, são os argumentos que contam. Já duvido que seja possível elaborar uma grelha universal que permita avaliar a qualidade de qualquer texto. Penso que o exercício da crítica é sempre um exercício de comparação valorativa.
Exemplifiquemos alguns critérios: clareza na expressão, precisão, concisão, coerência no enredo. São princípios que nos permitem colocar Italo Calvino, Borges ou George Orwell entre os grandes mestres da escrita. Mas não se aplicam de todo a Faulkner ou a António Lobo Antunes, autores que procuram incutir nos seus livros «o som e a fúria». Se virmos na reflexão filosófica a marca da obra-prima, Thomas Mann é um génio e Hemingway um escritor menor. Mas se considerarmos, como Aristóteles, que «a Arte imita a acção» (e não a vida, na tradução que li da Poética), então Hemingway e muitos outros norte-americanos são nomes maiores e Mann um nome fraquinho.
O crítico deve procurar em cada texto o conjunto de referências que permite avaliá-lo.

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