segunda-feira, dezembro 03, 2007

Don´t come knocking

Don´t come knocking voltou a juntar Wim Wenders e Sam Shepard, quase vinte anos depois do primeiro ter realizado Paris, Texas com um guião escrito pelo segundo. O risco do filme do século XXI parasitar e estragar as memórias de um dos filmes mais marcantes dos anos 80 era óbvio. Deste ponto de vista, as minhas apreensões não se concretizaram. Don´t come kocking é um filme menor e não bastam as brilhantes interpretações de Sam Shepard, Jessica Lange, Tim Roth, Eva Marie Saint, ou a direcção de fotografia por Franz Lustig para resgatá-lo dessa menoridade. Falta-lhe uma estrela como Nastassja Kinski em dias de maior esplendor; falta-lhe esse ritmo lento e voluptuoso, pontuado por silêncios, murmúrios e a música de Ry Cooder; falta-se a densidade dramática criada pelo luto de um grande amor ou a devolução de um filho a uma mãe. Falta-lhe tudo o que fez de Paris, Texas, uma peça única, imensa, completa.
Mas o tom menor de Don´t come knocking é justamente o mais adequado a contar uma história que expõe relações humanas frágeis: um sexagenário que parte à procura de um filho desconhecido e nascido de uma relação fortuita; o esboço de fraternidade entre dois estranhos; reencontros de pouca consequência. Filme de misfits, inadaptados de duas gerações, uma à beira dos trinta e outra à beira dos sessenta, que vêm uma na outra, com perturbação, um futuro imaginável ou um passado submerso. O desajustamento não vem só de percursos falhados e também de uma dificuldade de envolvimento num mundo subtilmente transformado pelas novas tecnologias e por todo o sistema mediático, de que a personagem principal, Howard Spence faz parte como estrela de westerns. A melancolia de Paris, Texas cede lugar a uma visão da distância entre as personagens e os lugares que percorrem com ecos de Antonioni e um sentido de humor com laivos de Jacques Tati.
O filme é uma estrela solitária, como o título mal achado para a versão portuguesa, e uma estrela pálida, que ainda assim merece ser vista.

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2 Comments:

Blogger Diogo disse...

Aqui vai uma pequena lição de finanças que o Professor Arroja também pode aproveitar (que bem precisado está):

Money as Debt

4:05 da tarde  
Anonymous Jorge Lopes disse...

Expliquem-me o que este comentario tem a ver com o post? O tal de Prof. Arroja é o produtor de Wenders ou este diogo é simplesmente imbecil?

9:27 da manhã  

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