domingo, dezembro 10, 2006

Maria Antonieta segundo Stefan Zweig

Em célebre biografia de Maria Antonieta, Stefan Zweig desenha, em tom melodramático, uma personagem complexa que evolui de jovem irresponsável para uma mulher tragicamente amadurecida. Alguns excertos:
«”Tenho medo de me aborrecer!” Esta frase de Maria Antonieta é a frase do seu tempo e de toda a sua sociedade.
O século XVIII chegou ao fim, cumpriu a sua missão. O reino encontra-se fundado, Versalhes construído, a etiqueta é perfeita, a corte está desocupada; sem guerra, os marechais são apenas fantoches de uniforme; os bispos, em presença de uma geração de descrentes, são somente galantes senhores de sotainas roxas; a rainha, não tendo um verdadeiro rei a seu lado, nem delfim a educar, contenta-se em ser uma alegre mundana.
Atacada pelo aborrecimento, toda esta gente fica insensível às ondas poderosas de uma época que avança impetuosa; e se, às vezes, lá mergulham as mãos curiosas, é para apanhar alguns calhaus cintilantes e para brincarem com o elemento formidável, rindo, como crianças, da espuma leve que escorre entre os seus dedos. Mas nenhum vê a subida cada vez mais rápida das ondas, e quando se apercebem, finalmente, do perigo, a fuga já não é possível – o jogo acabou, a vida está desperdiçada.» (1)
«Não se pode negar que essa teimosia em não querer compreender é o erro histórico de Maria Antonieta. Essa mulher, de inteligência mediana quanto a política, sem vista de conjunto sobre as filiações e ideias, sem perspicácia psicológica, nunca procura compreender outra coisa, por educação ou vontade, além do que é humano, próximo, sensível. Ora, de perto, do ponto de vista humano, todo o movimento político tem o aspecto de desordem; a imagem de uma ideia deforma-se sempre, quando se realiza. Maria Antonieta julga a Revolução – como poderia ser de outro modo? – segundo os homens que a dirigem; e, como sempre que há perturbações, os que mais gritam não são os mais honrados nem os melhores. Não tem a rainha razão para desconfiar, quando vê que são justamente os mais endividados e desacreditados entre os aristocratas, os mais corruptos, como Mirabeau e Talleyrand, os que primeiramente sentem que o coração lhes bate pela liberdade? Como poderia Maria Antonieta imaginar que a Revolução fosse uma coisa honrada e moral, quando vê o avaro e cúpido duque de Orleães, sempre pronto para todos os negócios sujos, entusiasmar-se com essa nova fraternidade? (…) Não compreende, nem tenta compreender as intenções nobres que se ocultam por trás da brutal revolta das ruas. (…) E, assim, acontece o que era fatal que acontecesse: Maria Antonieta é injusta para com a Revolução, esta é cruel para com ela.

A Revolução é a inimiga – é este o ponto de vista da rainha. A rainha é o obstáculo – é este o ponto de vista da Revolução. Com o seu instinto infalível, a massa do povo sente na rainha o único e verdadeiro obstáculo.» (2)

(1) ZWEIG, Stefan, Maria Antonieta, s.l., Círculo de Leitores, s.d., pág, 100.
(2) Idem, Op. Cit., pp. 212-213.

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