quinta-feira, outubro 26, 2006

Às Vezes...

Às vezes penso se não era mesmo assim que eu gostava de ver a “Europa.” Peço desculpa pela longa citação. Mas, afinal, é Gibbon.
Um grego mais judicioso, que redigiu com espírito filosófico a memorável história do seu tempo […] [tornou] patentes os profundos e sólidos alicerces da grandeza de Roma. A fidelidade dos cidadãos entre si e ao Estado era confirmada pelos hábitos da educação e pelos preconceitos da religião. A honra, tanto quanto a virtude, constituía o princípio da República; os cidadãos ambiciosos esforçavam-se por merecer as solenes glórias do triunfo; e o ardor da juventude romana era induzido a uma emulação activa sempre que contemplava os retratos domésticos dos antepassados. Os confrontos moderados entre patrícios e plebeus tinham finalmente estabelecido o firme equilíbrio da Constituição, reunido a liberdade das assembleias do povo, a autoridade e a soberania de um Senado e os poderes executivos de um magistrado supremo. Quando o cônsul desfraldava o estandarte da República, todos os cidadãos se obrigavam por juramento a empunhar a espada em prol do seu país, até cumprirem o dever sagrado mediante um serviço militar de dez anos. Uma tão sábia instituição lançava sem cessar no campo de batalha as gerações nascentes de homens livres e soldados; e o seu número era reforçado pelos aguerridos e populosos Estados de Itália que, após uma corajosa resistência, tinham reconhecido o valor e aceite a aliança dos Romanos. O sábio historiador que inflamou a virtude do último dos Cipiões, e observou a ruína de Cartago, descreveu cuidadosamente o seu sistema militar; os recrutamentos, as armas, os exércitos, a subordinação, as marchas, os acampamentos; e a invencível legião, superior em força activa à falange macedónia de Filipe e de Alexandre. Políbio atribuía a estas instituições de paz e de guerra o carácter e os êxitos de um povo incapaz de medo e adverso ao repouso. O ambicioso desígnio de conquista, que podia ter sido derrotado por uma oportuna concertação de nações, foi empreendido e consumado; e a perpétua violação da justiça estribou-se nas virtudes políticas da prudência e da coragem. Os exércitos da República, algumas vezes vencidos em batalha, sempre vitoriosos no fim da guerra, avançaram em passo rápido até ao Eufrates, ao Danúbio, ao Reno e ao Oceano; e as imagens de ouro, prata ou bronze que serviam para representar as nações e os seus reis, foram sucessivamente quebradas pelo jugo de ferro da dominação romana.
Edward Gibbon, The Decline and Fall of the Roman Empire (tradução portuguesa de Maria Emília Ferros Moura, revisão técnica de G. Cascais Franco, Difusão Cultural, 1995).

3 Comments:

Anonymous Anónimo disse...

Se o Fernando gostava de ver a Europa assim, aliste-se já, há tropas sempre a partir para o Afeganistão. Vá para lá, lute com bravura, mas... por favor, não chateie os outros!

Luís Lavoura

9:46 da manhã  
Blogger CN disse...

Isso é a eterna atracção pelo militarismo iluminista dos imperios do bem.

A civilização não progride assim.

Ainda antes de ser uma ideia, o Liberalismo e Capitalismo surgiu na prática numa realidade politica "europeia" totalmente atomizada e anti-império, os pequenos estados fragmentados e cidades-estado.

E o que destruiu essa ideia foi a Guerra de Impérios na "WWI".

È a esses tempos que a Europa e os próprios EUA tem de retornar, não a sonhos de Impérios do bem.

1:55 da tarde  
Blogger Fernando Martins disse...

Mas o "império" pode existir com em unidades políticas fraccionadas. A Europa fraccionada expandiu-se quase permanentemente desde o 1000. Foram, a partir daí, quase mil anos de glória, independentemente das guerras, dos totalitarismos, etc., etc.. O que me espanta na Europa e no Ocidente não é o seu lado sombrio - quem os não tem - mas o facto de apesar de tudo o que se fez mal, conseguiu-se sempre regressar e fazer melhor. Mesmo que depois se volte ao disparate.

8:00 da tarde  

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