quarta-feira, setembro 13, 2006

Obituário de um historiador

Joachim Fest, falecido a 11 de Setembro, continua a ser para mim o autor da mais interessante biografia de Hitler. Uma biografia publicada há mais de 30 anos - levemente retocada há meia dúzia - e que permanece acima de todas as outras: das mais polémicas, das pioneiras e das mais aclamadas nos meios académicos. Fest escreveu muito sobre o nazismo e fê-lo de uma forma única. Tal deveu-se ao seu enorme talento literário, à forma como reuniu e tratou fontes históricas da maior relevância, mas sobretudo pelo facto de ter tido de Hitler e do Nazismo uma visão única, simples e verosímil. Essa visão veio-lhe daquela que foi a sua experiência de vida - família versus sociedade e regime político - entre 1933 e 1945. Uma visão que lhe permitiu reconhecer a natureza totalitária - embora não única - do nazismo e, ao mesmo tempo, uma clara e descomplexada percepção sobre a forma como a sociedade alemã em circunstâncias particularmente difíceis se rendeu a uma realidade que significou a capitulação moral de um país e que foi, afinal, a capitulação moral de cada cidadão individualmente (independentemente de muitos e de muitas maneiras terem combatido o nazismo).

Nunca li o prefácio à última edição da biografia de Hitler publicada, salvo erro, no ano 2000, e que ao que parece, segundo algumas notícias, insiste em termos menos ortodoxos na natureza não excepcional do nazismo. Mas li - aliás nunca li mais nada escrito por Fest, excepto pequenos excertos da sua biografia de Albert Speer – a edição em língua inglesa da aclamada biografia de Hitler. Noutros tempos dei excertos do livro a ler aos meus alunos de história contemporânea. São passagens que merecem ser conhecidas por merecerem compreendidas e discutidas. Um dos mais importantes e surpreendente excerto dessa biografia a caminho da meia idade é o prólogo intitulado "Hitler and Historical Greatness". Aí, e recorde-se que o prólogo foi lido pela primeira vez na Alemanha em 1973, Fest inicia a sua prosa afirmando que a “História não regista nenhum fenómeno como ele” e que, portanto, nos devemos interrogar e discutir se Hitler merece o adjectivo de “grande”. E conclui que caso o cabo austríaco feito chanceler da República de Weimar em Janeiro de 1933 tivesse morrido cinco anos e meio depois de ter chegado ao poder ninguém lhe regatearia o adjectivo. Isto apesar de Mein Kampf, do programa anti-semita e de conquista do poder mundial com recurso à força das armas ali expresso. E depois Fest termina: “Podemos chamar-lhe grande?”

Nota final: Três obituários de Joachim Fest estão aqui, aqui e aqui.

3 Comments:

Blogger CLeone disse...

Bom post, vou linkar (até por me sentir menos culpado por não ter escrito sobre fest ontem...)

2:11 da tarde  
Blogger Fernando Martins disse...

Obrigado!

8:22 da tarde  
Blogger João Pedro disse...

Recentemente também soube, por alguns naturais de Munique, que a pena de Hitler por causa do putsh falhado em 1923, na Baviera, era de cinco anos de cadeia. Só cumpriu alguns meses. Tivesse ido até ao fim, e a história seria diferente.

12:11 da manhã  

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